Mês: agosto 2017

Pela Noite Alta

Já reparaste? Pelo outono,
Nas noites frias e sem lua,
quando um silêncio de abandono
Cai sobre a enorme alma da rua
Como o beijo de luz que as janelas abertas
Põem nas calçadas tristes e desertas, 
Faz reviver do fundo da memória,
Por um milagre de magia,
Um gesto morto e já olvidado,
O doce fecho de uma história,
Sombra de amor, melancolia,
Vago perfume do passado?…

Janelas alta noite iluminadas,
Deixando adivinhar, ao crivo da cortina,
Suaves palavras murmuradas
Por duas bocas bem-amadas,
E a exaltação das almas postas em surdina…

Eu recordo, perdida,
Longe, em um trecho azul da minha vida,
Uma janela assim:
Oásis de branca claridade
Dentro da noite, a transbordar felicidade,
Para o mistério de um jardim…

E o fantasma da minha mocidade
Só, debruçado junto a mim. 

Alceu Wamosy In Coroa de Sonho, 1923
III Parte – Coroa de Sonho

Desencontrados

Disseste vir às nove, e já demoras…
São dez ou onze? Quantas horas são?
Não sei dizer. Quem ama traz as horas
No relógio de amor do coração.
 
Passei junto ao Palácio aonde moras:
– Tudo fechado, tudo solidão…
Nem entre as bambinelas, como auroras,
Surgem teus olhos, numa explicação.
 
Tinhas saído então. Se era o Destino
A separar-nos já, eu imagino
Que ele cumpriu-se – porque nos zangámos.
 
Agora, que fugimos de nos ver,
Eu não consigo, Isaura, compreender
Como é que tão depressa nos achamos.
 
Alfredo de Barros, Versos de cinza, 1946

Sacrário

Ausência do corpo.
Amor absoluto.

Hosanas de Sol.
De chuva.
De areia.
E andorinhas
resvalando as asas
no consternado ombro cinzento
de uma nuvem.

E uma hérbia mantilha
teu sacrário
velando.

Noémia de Sousa, em “Sangue negro”. Moçambique: Associação de Escritores Moçambicanos, 2001

Súplica

Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!

Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez…

Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a lua lírica do xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota – a humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor do lume
(que nos é quase tudo)
– mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longe terras,
vender-nos como mercadoria, acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!

Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos,
e no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume
a palhota que vivemos,
a machamba que nos dá o pão!

E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso…

E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!

– Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:

Tirem-nos tudo…
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!

Noémia de Sousa, em “Sangue negro”. Moçambique: Associação de Escritores Moçambicanos, 2001

Maternidade

Olho-te: és negra.
Olhas-me: sou branca.
Mas sorrimos as duas
na tarde que se adeanta.

Tu sabes e eu sei:
o que ergue altivamente o meu vestido
e o que soergue a tua capulana,
é a mesma carga humana

Quando soar a hora
determinada, crua, dolorosa
de conceder ao mundo o mistério da vida,

seremos tão iguais, tão verdadeiras,
tão míseras, tão fortes
E tão perto da morte…

que este sorriso de hoje,
na tarde que se esvai,
é o testemunho exacto
do erro das fronteiras raciais.

Dos nossos ventres altos,
os filhos que brotarem
nos chamarão com a mesma palavra.

E ambas estamos certas
– tu, negra e eu, branca –
que é dentro dos nossos ventres
que germina a esperança.

Glória de Sant’Anna in Um denso azul silêncio, 1965