Mês: julho 2018

Tempo

Eu não amava que botassem data na minha existência.
A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data
maior era o quando. O quando mandava em nós. A
gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio.
Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma
árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou:
tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra
eu posso conviver com os lagartos e com os musgos. Assim:
tem hora que eu sou quando um rio. E as garças me beijam
e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava
nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi
voltar quando infante por um gosto de voltar. Como
quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de
um ser. Então agora eu estou quando infante. Agora
nossos irmãos, nosso pai,nossa mãe e todos moramos
no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho não
tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase
roçava nas palhas. A mãe cozinhava, lavava e costurava
para nós. O pai passava o seu dia passando arame
nos postes de cerca. A gente brincava no terreiro de
cangar sapo, capar gafanhoto e fazer morrinhos de
areia. Às vezes aparecia na beira do mato com a sua
língua fininha um lagarto. E ali ficava cubando.
Por barulho de nossa fala o lagarto sumia no mato,
Folhava. A mãe jogava lenha nos quatis e nos bugios
que queriam roubar nossa comida. Nesse tempo a gente
era quando crianças. Quem é quando criança a natureza
nos mistura com as suas árvores, com as suas águas,
com o olho azul do céu. Por tudo isso que eu não
gostasse de botar data na existência. Por que o
tempo não anda pra trás. Ele só andasse pra trás
botando a palavra quando de suporte.
 
Manoel de Barros, em Memórias Inventadas
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VI

Desde o começo do mundo água e chão se amam
e se entram amorosamente
e se fecundam.
Nascem peixes para habitar os rios
E nascem pássaros para habitar as árvores.
As águas ainda ajudam na formação dos caracóis e das
suas lesmas.
As águas são a epifania da criação.
Agora eu penso nas águas do Pantanal.
Penso nos rios infantis que ainda procuram declives
para escorrer.
Porque as águas deste lugar ainda são espraiadas para
alegria das garças.
Estes pequenos corixos ainda precisam de formar
barrancos para se comportarem em seus leitos.
Penso com humildade que fui convidado para o
banquete destas águas.
Porque sou de bugre.
Porque sou de brejo.
Acho agora que estas águas que bem conhecem a
inocência de seus pássaros e de suas árvores.
Que elas pertencem também de nossas origens.
Louvo portanto esta fonte de todos os seres e de todas
as plantas.
Vez que todos somos devedores destas águas.
Louvo ainda as vozes dos habitantes deste lugar que
trazem para nós, na umidez de suas palavras, a boa
inocência de nossas origens.

Manoel de Barros, em Menino do Mato

Confidência

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com suavidade
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto, In Raiz de Orvalho e outros poemas

A espera

Aguardo-te
como o barro espera a mão.

Com a mesma saudade
que a semente sente do chão.

O tempo perde a fonte
e a manhã
nasce tão exausta
que a luz chega apenas pela noite.

O relógio tomba
E o ponteiro se crava
No centro do meu peito

Fui morto pelo tempo
No dia em que te esperei.

Mia Couto, In Idades Cidades Divindades