bernado soares

Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança.

   Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas por que deixou que a Vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não poderia viver senão acarinhado, porque deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevenido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passa usam-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.

Sinto o tempo

Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa. O pobre quarto alugado onde passei uns meses, a mesa do hotel de província onde passei seis dias, a própria triste sala de espera da estação de caminho-de-ferro onde gastei duas horas à espera do comboio — sim, mas as coisas pequenas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da boca de Deus roça-me pela face lívida.

O tempo! O passado! Aí algures, uma voz, um canto, um perfume ocasional levantou em minha alma o pano de boca das minhas recordações… Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.

Quando criança eu apanhava os carrinhos de linha

Quando criança eu apanhava os carrinhos de linha. Amava-os com um amor doloroso — que bem que me lembro — porque tinha por eles não serem reais uma imensa compaixão.

Quando um dia consegui haver às mãos o resto de umas pedras de xadrez, que alegria não foi a minha! Arranjei logo nomes para as figuras e passaram a pertencer ao meu mundo de sonho.

Essas figuras definiam-se nitidamente. Tinham vidas distintas. Morava um — cujo carácter eu decretara violento e sportsman — numa caixa que estava em cima da minha cómoda, por onde passeava, à tarde quando eu, e depois ele, regressávamos do colégio, um carro eléctrico de interiores de caixas de fósforos de madeira, ligadas não sei por que arranjo de arame. Ele saltava sempre com o carro a andar. Ó minha infância morta! Ó cadáver sempre vivo no meu peito! Quando me lembro destes meus brinquedos de criança já crescida, a sensação de lágrimas aquece-me os olhos e uma saudade aguda e inútil rói-me como um remorso. Tudo aquilo passou, ficou hirto e visível, visualizável no meu passado, na minha perpétua ideia do meu quarto de então, à roda da minha pessoa invisualizável de criança, vista de dentro, que ia da cómoda para o toucador, e do toucador para a cama, conduzindo pelo ar, imaginando-o parte da linha de carris, o eléctrico rudimentar que levava a casa os meus escolares de madeira ridículos.

A uns eu atribuía vícios — fumo, roubo — mas não sou de índole sexual e não lhes atribuía actos, salvo, creio, uma predilecção, que me parecia um acto de brincar, de beijar raparigas e espreitar-lhes as pernas. Fazia-os fumar papei enrolado por trás de uma caixa grande que havia em cima duma mala. Às vezes aparecia no lugar um mestre. E era com toda a emoção deles, e que eu me via obrigado a sentir, que eu arrumava logo o cigarro falso e punha o fumador vendo-o curiosamente desprendido à esquina, esperando o mestre, e cumprimentando-o, não me lembro bem como, à inevitável passagem… Às vezes, estavam longe um do outro e eu não podia com um braço manobrar esse e outro com o outro. Tinha que os fazer andar alternadamente. Doía-me isto como hoje me dói não poder dar expressão a uma vida… Ah, mas por que recordo eu isto? Por que não fiquei eu sempre criança? Por que não morri eu ali, num desses momentos, preso das astúcias dos meus escolares e da vinda como-que-inesperada dos meus mestres? Hoje não posso fazer isto… Hoje tenho só a realidade com que não posso brincar… Pobre criança exilada na sua virilidade! Por que foi que eu tive de crescer?

Hoje, quando relembro isto, vêm-me saudades de mais coisas do que isto tudo. Morreu em mim mais do que o meu passado.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.

PROSA DE FÉRIAS

A praia pequena, formando uma baía pequeníssima, excluída do mundo por dois promontórios em miniatura, era, naquelas férias de três dias, o meu retiro de mim mesmo. Descia-se para a praia por uma escada tosca, que começava, em cima, em escada de madeira, e a meio se tornava em recorte de degraus na rocha, com corrimão de ferro ferrugento. E, sempre que eu descia a escada velha, e sobretudo da pedra aos pés para baixo, saía da minha própria existência, encontrando-me.

Dizem os ocultistas, ou alguns deles, que há momentos supremos da alma em que ela recorda, com a emoção ou com parte da memória, um momento, ou um aspecto, ou uma sombra, de uma encarnação anterior. E então, como regressa a um tempo que está mais próximo que o seu presente da origem e do começo das coisas, sente, em certo modo, uma infância e uma libertação.

Dir-se-ia que, descendo aquela escada pouco usada agora, e entrando lentamente na praia pequena sempre deserta, eu empregava um processo mágico para me encontrar mais próximo da mónada possível que sou. Certos modos e feições da minha vida quotidiana — representados no meu ser constante por desejos, repugnâncias, preocupações — sumiam-se de mim como emboscados da ronda, apagavam-se nas sombras até se não perceber o que eram, e eu atingia um estado de distância íntima em que se me tornava difícil lembrar-me de ontem, ou conhecer como meu o ser que em mim está vivo todos os dias. As minhas emoções de constantemente, os meus hábitos regularmente irregulares, as minhas falas com outros, as minhas adaptações à constituição social do mundo — tudo isto me parecia coisas lidas algures, páginas inertes de uma biografia impressa, pormenores de um romance qualquer, naqueles capítulos intervalares que lemos pensando em coisa, e o fio da narrativa se esbambeia até cobrejar pelo chão.

Então, na praia rumorosa só das ondas próprias, ou do vento que passa, como um grande avião inexistente, entregava-me a uma nova espécie de sonhos — coisas informes e suaves, maravilhas da impressão profunda, sem imagens, sem emoções, limpas como o céu e as águas, e soando, como as volutas desrendando-se do mar alçante, do fundo de uma grande verdade tremulamente de um azul oblíquo ao longe, esverdeando na chegada com transparências de outros tons verde-sujos, e, depois de quebrar, chiando, os mil braços desfeitos, e os desalongar em areia amorenada e espuma desbabada, congregando em si todas as ressacas, os regressos à liberdade da origem, as saudades divinas, as memórias, como esta que informemente me não doía, de um estado anterior, ou feliz por bom ou por outro, um corpo de saudade com alma de espuma, o repouso, a morte, o tudo ou nada que cerca como um grande mar a ilha de náufragos que é a vida.

E eu dormia sem sono, desviado já do que via a sentir, crepúsculo de mim mesmo, som de água entre árvores, calma dos grandes rios, frescura das tardes tristes, lento arfar do peito brancos do sono de infância da contemplação.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.