Glória de Sant’Anna

Epitáfio

Eu um dia serei uma poalha de vento
pousando inadvertidamente em tua face

e me sacudirás

Eu um dia serei uma réstea de chuva
caída por acaso em tua fronte

e me sacudirás

E eu um dia serei a última lembrança
imponderável já na tua mente

e então me esquecerás

Glória de Sant’Anna, Amaranto, Poesia 1951 – 1983. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988

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Maternidade

Olho-te: és negra.
Olhas-me: sou branca.
Mas sorrimos as duas
na tarde que se adeanta.

Tu sabes e eu sei:
o que ergue altivamente o meu vestido
e o que soergue a tua capulana,
é a mesma carga humana

Quando soar a hora
determinada, crua, dolorosa
de conceder ao mundo o mistério da vida,

seremos tão iguais, tão verdadeiras,
tão míseras, tão fortes
E tão perto da morte…

que este sorriso de hoje,
na tarde que se esvai,
é o testemunho exacto
do erro das fronteiras raciais.

Dos nossos ventres altos,
os filhos que brotarem
nos chamarão com a mesma palavra.

E ambas estamos certas
– tu, negra e eu, branca –
que é dentro dos nossos ventres
que germina a esperança.

Glória de Sant’Anna in Um denso azul silêncio, 1965

A ave pintada

A ave pintada veio
dos teus olhos de cristal
igual a todas as aves
esguias dentro das árvores

ou atiradas no azul
pelo anseio incontido
de quebrar todos os fios
presos aos certos caminhos

onde as nossas asas cumprem
erradamente o destino
de não sermos soltas aves
dentro de todas as árvores.

Glória de Sant’Anna in Um denso azul silêncio, 1965

Silêncio

Silêncio aberto
de plenitude
como uma ilha
num lago fundo

Silêncio exacto
cheio de música
vindo de nada
contendo tudo.

É este agora
deste momento
em que estando
me ausento.

Glória de Sant’Anna in Um denso azul silêncio, 1965

Poema Pequeno

Silêncio erguido
de outro sentido.

A noite morta
ronda lá fora
e nela
o meu oculto grito.

Glória de Sant’Anna in Iivro de Água,1961

Pergunta

Talvez eu viesse de dentro da noite
com fundos segrêdos nos olhos fechados.

Talvez meu sorriso
estivesse marcado por cima dos lagos.

Talvez minhas mãos,
talvez meus cabelos,
talvez eu inteira trazendo recados
por outros caminhos errados.

Glória de Sant’Anna in Música Ausente, 1954

Confidência

Que eternidade inesperada
Surge do teu abraço?

Eu vogo tarda,
Longe do meu olhar velado,
E as mãos
São estrelas de cinco pontas
Sobre um lago

Glória de Sant’Anna in Distância, 1951