Adalgisa Nery

Biografia dos meus olhos

Estes meus olhos que um dia perceberam vagamente 
O colorido, as formas, 
Que aprenderam a beleza do voo das aves e a amplidão das campinas, 
Os meus olhos que um dia tão contentes 
Transmitiram à minha alma 
As palavras de um amor adolescente, 
Os meus olhos que mais tarde encantados 
Viram os meus braços receberem 
O que o meu ventre havia gerado. 
Estes meus olhos que choraram tantas vezes escondido, 
Que tantas vezes se afogaram no pavor 
E num medo indefinido, 
Estes olhos que um dia sorriram 
De frescura e esperança. 
Estes meus olhos cansados 
De tristezas prematuras 
Rasos de doídas lágrimas 
Sobre berços e sepulturas 
Foram os que aprenderam duramente 
O que era o pranto e a mágoa 
Na destruição do desejo da vida mais ardente. 
Estes meus olhos que agonizam agora sofridos, envelhecidos 
Se apagarão na misteriosa noite 
Com a derradeira lágrima pelos desolados e os vencidos! 

Adalgisa Nery, In Cantos da Angústia, 1948

O desvendado

O que há além dos veleiros perdidos no silêncio das esperas,
Além do azul parado atrás do horizonte?

O que há atrás de cada impulso, de cada gesto cortado,
Além do que existe e não sabemos procurar?

O que há além da ternura
Acomodada na procura incerta do prazer,
Na aceitação que vem pelo cansaço e o desamor?

O que há além de cada mundo que somos?
O que há além da imensidão dos vazios
Multiplicados na orla de cada minuto?

Exílio alargando-se na vida para o termo da morte.

Adalgisa Nery, In Erosão, 1973

Cancão para dentro

A canção do corpo é cantada para dentro 
E a leveza da alegria se transmuda em peso, 
A brisa adere aos amargos pensamentos 
Fluindo no sorriso compassivo. 
Logo, 
Surgindo de células desamadas 
Os matizes áureos anoitecem, 
Pálpebras levantadas vão caindo 
E nesgas apenas vislumbramos, 
Geografias em nós morrendo, 
Oceanos crescendo, ilhas sumindo, 
Rosas nascendo na canção 
Que o corpo canta para dentro. 

Adalgisa Nery, In Erosão, 1973

Rotina de todos nós

Ser fragmento do transitório, 
Analisar-se no mistério do demudado, 
Saber perder o que jamais foi possuído 
Mas desejado, 
Esperar o que nunca foi criado, 
Cravar-se em raízes já extintas, 
Conduzir-se por idéias não nascidas, 
Ver grandezas na própria fraqueza, 
Proclamar o amor sobre o desamor, 
Ser pureza ao lado da degradação 
É existir no que não tem sentido, 
É esquecer o que não foi pensado, 
É caminhar sem deixar traços, 
É ser pássaro sem asas 
É tentar sair do chão para os espaços. 

Adalgisa Nery, In Erosão, 1973

Mapa

Partículas sem rotação, 
Corpos girando no plano do impossível. 
Luz interdita guarda o poema 
Nas gavetas do silencioso. 
Multiplicam-se as visões 
Na velocidade dos ventos 
Gritando sons de pesadelos. 
Atrás dos ruídos 
Está o claustro branco. 
Cubículos da angústia 
Preenchidos com terrores não pensados 
E o gráfico da memória 
Alarga-se no quarto estágio do REM 
Que agita a profundidade do sono. 
Nenhuma porta está aberta à alma, 
Só a dos desertos infinitos 
Que a cada minuto nos levam 
À certeza de infindos exílios. 

Adalgisa Nery, In Erosão, 1973

A rota

O mundo pulveriza-nos sem revelar 
Seus intuitos secretos. 
A vida é contemplá-los nos seus gestos mais sutis 
E sentir nas águas profundas 
O que de cada destino foi escrito 
Nos penhascos dos mares agitados. 
No vácuo do espírito 
Anda a forma sem direção 
Por caminhos já pisados 
E inseguros são os passos repetidos. 
Nem sempre o olhar mais aberto 
À procura da estrada de nós mesmos 
Torna o espírito mais desperto. 
Vivemos nos penhascos dos mares agitados. 

Adalgisa Nery, In Erosão, 1973

Mistério

Há vozes dentro da noite que clamam por mim, 
Há vozes nas fontes que gritam meu nome. 
Minha alma distende seus ouvidos 
E minha memória desce aos abismos escuros 
Procurando quem chama. 
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim. 
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome 
E eu olho para as árvores tranqüilas 
E para as montanhas impassíveis 
Procurando quem chama. 
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome 
E as ondas batem nas praias 
Deixando exaustas um grito por mim 
E meus olhos caem na lembrança do paraíso 
Para saber quem chama. 
Há vozes nos corpos sem vida, 
Há vozes no meu caminhar, 
Há vozes no sono de meus filhos 
E meu pensamento como um relâmpago risca 
O limite da minha existência 
Na ânsia de saber quem grita. 

Adalgisa Nery, In Cantos da Angústia, 1948

Escultura

Eu já te amava pelas fotografias. 
Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos, 
Pelo teu olhar vago e incerto 
Como o dos que não pararam no riso e na alegria. 
Te amava por todos os teus complexos de derrota, 
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas 
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa. 
Te falei um dia fora da fotografia 
Te amei com a mesma ternura 
Que há num carinho rodeado de silêncio 
E não sentiste quantas vezes 
Minhas mãos usaram meu pensamento, 
Afagando teus cabelos num êxtase imenso. 
E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar 
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia 
Que a verdade da vida sempre pede 
E que interminavelmente tens que dar!… 

Adalgisa Nery, In A Mulher Ausente, 1940

Lembrança

Fiquei vivendo à tua sombra
Como os musgos à beira das fontes.
Com ritmo agreste verguei meu corpo
Com um movimento de arco distendido pela flecha
E o ruído do meu sangue correndo em minhas veias
Foi como o das distantes cachoeiras perdidas.
O meu pensamento como um pássaro da noite
Riscou o silencio dos nossos corpos deitados
E pousou na tua boca entreaberta
Como a brisa sobre os jardins pisados.
O perfume da terra chovida
Que a tua presença evaporava
Penetrou nos meus cabelos
Como a seiva dos frutos caídos
E aprofundou-se nos meus sentidos
Como a gota sorvida pelas quentes areias.
Fiquei no teu corpo
Como a poeira das estradas
Pegada às folhas novas
As folhas que não necessitam florescer
Porque o sangue da terra
Justifica o seu isolamento
Fiquei vivendo à sombra do teu corpo
Como os musgos à beira das fontes.

Adalgisa Nery, In Cantos da Angústia, 1948

Poema da amante

Eu te amo 
Antes e depois de todos os acontecimentos 
Na profunda imensidade do vazio 
E a cada lágrima dos meus pensamentos. 

Eu te amo 
Em todos os ventos que cantam, 
Em todas as sombras que choram, 
Na extensão infinita do tempo 
Até a região onde os silêncios moram. 

Eu te amo 
Em todas as transformações da vida, 
Em todos os caminhos do medo, 
Na angústia da vontade perdida 
E na dor que se veste em segredo. 

Eu te amo 
Em tudo que estás presente, 
No olhar dos astros que te alcançam 
Em tudo que ainda estás ausente. 

Eu te amo 
Desde a criação das águas, 
desde a idéia do fogo 
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa. 

Eu te amo perdidamente 
Desde a grande nebulosa 
Até depois que o universo cair sobre mim 
Suavemente. 

Adalgisa Nery, In Mundos Oscilantes, 1962

Simplicidade

Vida no vento, 
Vida na rosa, 
Vida no fogo, 
Vida na pedra, 
Vida na água, 
Vida na luz, 
Vida no pranto, 
Vida no húmus, 
Vida na vida do amigo, 
Vida no silêncio, 
Vida na angústia, 
Vida no mistério da criança, 
Vida na vida 
Cantando, cantando sempre 
Na infinita vida da morte. 

Adalgisa Nery, In Erosão, 1973

Abandono

A exaustão faminta 
Procura elementos ainda vivos no meu ser 
Talvez guardados em escuros vácuos 
Que carrego sem saber. 
Alimenta-se do sopro das imagens 
Desenhadas pela minha imaginação 
Pelo tato dos meus sentimentos, 
Pelo pânico do desconhecido. 
Aparece como febre constante dilatando as minhas carnes 
Descoloridas e sem sabor de vida. 
A exaustão sobe pelos meus pés, 
Cobre os meus gestos incipientes, 
Prende a minha língua, 
Suga o meu cérebro, ninho de aranhas em fogo, 
Pousa no meu cabelo como morcego. 
Exaustão que funga o ar, que saqueia o meu silêncio, 
Último repouso nos meus vácuos devassados. 

Adalgisa Nery, In Erosão, 1973

Escombros

Caída no espaço, por todo o eterno momento, 
Sem projetos, sem desejos, 
Sem o menor ideal, sem o mínimo pensamento, 
Sem o prazer de ouvir, 
Sem o ímpeto de amparar, 
Sem o hábito de rir 
E a tendência de chorar, 
Com a memória na ausência 
De todo o mal, todo o bem, 
De qualquer reminiscência, 
Sem o sol atravessar 
A fímbria das minhas pálpebras 
Para as cores devassar, 
Queimando meu espírito no tédio 
E pousada em minha testa a consciência do fim, 
Sem solução, sem remédio, 
Eis tudo o que resta de mim. 

Adalgisa Nery, In Mundos Oscilantes, 1962

Conversa perdida

O que resta do espírito agora 
Quando o sentido de vazio foi predominante 
No meu pensamento desde outrora? 
O que significa o último movimento 
Quando todos na minha existência 
Flutuaram na descrença do momento? 
O que responder com o olhar 
Quando sempre em tristeza foi usado nos mortos-vivos? 
O que pensar de mim agora 
Quando antes já sabia estar pousada 
Nos vazios de outrora? 

Adalgisa Nery, In Erosão, 1973

Ternura

Antes que eu me transforme em água
E corra com os rios
Cantando para as florestas escuras
A canção sublime
Deixa-me contemplar tua face amada
Para que a canção se eternize.
Antes que os meus olhos se transformem
nos minúsculos vermes
Que movimentam o solo
Deixa-me receber a luz de tua boca
Para que eu me ilumine como as estrelas
No infinito da noite.
Antes que minhas mãos se mudem nas pedras das montanhas
Por onde caminharão os jovens pastores
Deixa-me afagar teus cabelos
Para que meu carinho se transforme na brisa
Que beija os grandes trigais.
Antes que minha forma sirva junto às raízes
Para amadurecer os frutos
Guarda-me na música de teu corpo
Para que o mistério do amor
Baixe sobre o universo
E banhe os espíritos perturbados.

Adalgisa Nery, In Mundos Oscilantes, 1962

Repouso

Dá-me tua mão 
E eu te levarei aos campos musicados pela canção das colheitas 
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem os frutos, 
Antes que os insetos se alimentem das folhas entreabertas. 
Dá-me tua mão 
E eu te levarei a gozar a alegria do solo agradecido, 
Te darei por leito a terra amiga 
E repousarei tua cabeça envelhecida 
Na relva silenciosa dos campos. 
Nada te perguntarei, 
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes 
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito amada. 

Adalgisa Nery, In As Fronteiras da Quarta Dimensão, 1951

Poema de amor

Ouve-me com teus olhos 
Porque minha queixa é muda. 
Acaricia-me com teu pensamento 
Porque meu corpo está imóvel. 
Beija-me com tuas mãos 
Porque minha boca te espera. 
Fala-me com o silêncio dos momentos de amor 
Porque os ouvidos da minha vida 
Se abrirão como as flores 
Na úmida e infinita madrugada. 

Adalgisa Nery, In Mundos Oscilantes, 1962

Metamorfose

No combate entre o gelo e o fogo 
A vida universal desdobra-se em ciclos 
No espaço de mil séculos. 
Tomamos consciência do cósmico, 
Tentamos ligações com o espírito há muito abatido 
E a alma afunda em dimensões pulverizadas. 
Dá-se a recuperação das espécies rejeitadas, 
O achado do perdido não procurado. 
Do implacável e do flamejante 
O universo não está terminado. 
Há mutações silenciosas em cada instante que soçobra
E que só percebemos da metamorfose de mil em mil séculos. 

Somos casulos pendurados nas folhas de árvores sem nome, 
Casulos à espera da metamorfose cíclica do tempo. 

Adalgisa Nery, In Erosão, 1973