Alberto Caeiro

Se Eu Morrer Novo

Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Falas de Civilização, e de não Dever Ser

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas—a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Eu Sou do Tamanho do que Vejo

Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema VII”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Quem Ama É Diferente de quem É

 

Todos dias agora acordo com alegria e pena. 
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava. 
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho 
E posso estar na realidade onde está o que sonho. 
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações. 
Não sei o que hei de ser comigo sozinho. 
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo. 

Quem ama é diferente de quem é 
É a mesma pessoa sem ninguém. 

Alberto Caeiro, in “O Pastor Amoroso” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Estou Lúcido como se Nunca Tivesse Pensado

 

A noite desce, o calor soçobra um pouco, 
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado 
E tivesse raiz, ligação direta com a terra 
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite. 
À noite quando me separo das cousas, 
E m’aproximo das estrelas ou constelações distantes — 
Erro: porque o distante não é o próximo, 
E aproximá-lo é enganar-me. 

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Eu Queria Ter o Tempo e o Sossego Suficientes

 

Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes 
Para não pensar em coisa nenhuma, 
Para nem me sentir viver, 
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido. 

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Sempre que Penso uma Coisa, Traio-a

 

Sempre que penso uma coisa, traio-a. 
Só tendo-a diante de mim devo pensar nela. 
Não pensando, mas vendo, 
Não com o pensamento, mas com os olhos. 
Uma coisa que é visível existe para se ver, 
E o que existe para os olhos não tem que existir para o pensamento; 
Só existe verdadeiramente para o pensamento e não para os olhos. 

Olho, e as coisas existem. 
Penso e existo só eu. 

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Falaram-me os Homens em Humanidade

 

Falaram-me os homens em humanidade, 
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade. 
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si. 
Cada um separado do outro por um espaço sem homens. 

Alberto Caeiro, in “Fragmentos” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Ontem à Tarde um Homem das Cidades

 

Ontem à tarde um homem das cidades 
Falava à porta da estalagem. 
Falava comigo também. 
Falava da justiça e da luta para haver justiça 
E dos operários que sofrem, 
E do trabalho constante, e dos que têm fome, 
E dos ricos, que só têm costas para isso. 
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos 
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia 
O ódio que ele sentia, e a compaixão 
Que ele dizia que sentia. 
(Mas eu mal o estava ouvindo. 
Que me importam a mim os homens 
E o que sofrem ou supõem que sofrem? 
Sejam como eu — não sofrerão. 
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os 
outros, 
Quer para fazer bem, quer para fazer mal. 
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos. 
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.) 
Eu no que estava pensando 
Quando o amigo de gente falava 
(E isso me comoveu até às lágrimas), 
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos 
A esse entardecer 
Não parecia os sinos duma capela pequenina 
A que fossem à missa as flores e os regatos 
E as almas simples como a minha. 
(Louvado seja Deus que não sou bom, 
E tenho o egoísmo natural das flores 
E dos rios que seguem o seu caminho 
Preocupados sem o saber 
Só com florir e ir correndo. 
É essa a única missão no Mundo, 
Essa — existir claramente, 
E saber faze-lo sem pensar nisso. 
E o homem calara-se, olhando o poente. 
Mas que tem com o poente quem odeia e ama? 

Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema XXXII” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Última estrela a desaparecer antes do dia

 

 

Última estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim;
Alegre pela vitória que tenho em poder ver-te
Sem «estado de alma» nenhum, sonho ver-te.
A tua beleza para mim está em existires.
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

A Manhã Raia

 
 
A manhã raia. Não: a manhã não raia. 
A manhã é uma coisa abstracta, está, não é uma coisa. 
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui. 
Se o sol matutino dando nas árvores é belo, 
É tão belo se chamarmos à manhã «Começarmos a ver o sol» 
Como o é se lhe chamarmos a manhã, 
Por isso se não há vantagem em por nomes errados às coisas, 
Devemos nunca lhes por nomes alguns. 

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Quando Eu não te Tinha

 

 

Quando eu não te tinha 
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo. 
Agora amo a Natureza 
Como um monge calmo à Virgem Maria, 
Religiosamente, a meu modo, como dantes, 
Mas de outra maneira mais comovida e próxima … 
Vejo melhor os rios quando vou contigo 
Pelos campos até à beira dos rios; 
Sentado a teu lado reparando nas nuvens 
Reparo nelas melhor — 
Tu não me tiraste a Natureza … 
Tu mudaste a Natureza … 
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim, 
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma, 
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais, 
Por tu me escolheres para te ter e te amar, 
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente 
Sobre todas as cousas. 
Não me arrependo do que fui outrora 
Porque ainda o sou. 

Alberto Caeiro, in “O Pastor Amoroso” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem

 

 

Se às vezes digo que as flores sorriem 
E se eu disser que os rios cantam, 
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores 
E cantos no correr dos rios… 
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos 
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios. 
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes 
À sua estupidez de sentidos… 
Não concordo comigo mas absolvo-me, 
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza, 
Porque há homens que não percebem a sua linguagem, 
Por ela não ser linguagem nenhuma. 

Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema XXXI” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Navio que Partes para Longe

 

 

Navio que partes para longe, 
Por que é que, ao contrário dos outros, 
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti? 
Porque quando te não vejo, deixaste de existir. 
E se se tem saudades do que não existe, 
Sinto-a em relação a cousa nenhuma; 
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade. 

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Para Além da Curva da Estrada

 

 

Para além da curva da estrada 
Talvez haja um poço, e talvez um castelo, 
E talvez apenas a continuação da estrada. 
Não sei nem pergunto. 
Enquanto vou na estrada antes da curva 
Só olho para a estrada antes da curva, 
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva. 
De nada me serviria estar olhando para outro lado 
E para aquilo que não vejo. 
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. 
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. 
Se há alguém para além da curva da estrada, 
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada. 
Essa é que é a estrada para eles. 
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. 
Por ora só sabemos que lá não estamos. 
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva 
Há a estrada sem curva nenhuma. 

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

A espantosa realidade das cousas

 
 
 
A espantosa realidade das cousas 
É a minha descoberta de todos os dias. 
Cada cousa é o que é, 
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, 
E quanto isso me basta. 

Basta existir para se ser completo. 

Tenho escrito bastantes poemas. 
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente. 

Cada poema meu diz isto, 
E todos os meus poemas são diferentes, 
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto. 

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. 
Não me ponho a pensar se ela sente. 
Não me perco a chamar-lhe minha irmã. 
Mas gosto dela por ela ser uma pedra, 
Gosto dela porque ela não sente nada. 
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo. 

Outras vezes oiço passar o vento, 
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. 

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto; 
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo, 
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar; 
Porque o penso sem pensamentos 
Porque o digo como as minhas palavras o dizem. 

Uma vez chamaram-me poeta materialista, 
E eu admirei-me, porque não julgava 
Que se me pudesse chamar qualquer cousa. 
Eu nem sequer sou poeta: vejo. 
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho: 
O valor está ali, nos meus versos. 
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade. 

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Não Tenho Pressa

 

 

Não tenho pressa. Pressa de quê? 
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos. 
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas, 
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra. 
Não; não sei ter pressa. 
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega – 
Nem um centímetro mais longe. 
Toco só onde toco, não aonde penso. 
Só me posso sentar aonde estou. 
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras, 
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa, 
E vivemos vadios da nossa realidade. 
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui. 

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” 
Heterónimo de Fernando Pessoa