Alceu Wamosy

Pela Noite Alta

Já reparaste? Pelo outono,
Nas noites frias e sem lua,
quando um silêncio de abandono
Cai sobre a enorme alma da rua
Como o beijo de luz que as janelas abertas
Põem nas calçadas tristes e desertas, 
Faz reviver do fundo da memória,
Por um milagre de magia,
Um gesto morto e já olvidado,
O doce fecho de uma história,
Sombra de amor, melancolia,
Vago perfume do passado?…

Janelas alta noite iluminadas,
Deixando adivinhar, ao crivo da cortina,
Suaves palavras murmuradas
Por duas bocas bem-amadas,
E a exaltação das almas postas em surdina…

Eu recordo, perdida,
Longe, em um trecho azul da minha vida,
Uma janela assim:
Oásis de branca claridade
Dentro da noite, a transbordar felicidade,
Para o mistério de um jardim…

E o fantasma da minha mocidade
Só, debruçado junto a mim. 

Alceu Wamosy In Coroa de Sonho, 1923
III Parte – Coroa de Sonho

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Noturno

Tu pensarás em mim, por esta noite imensa
e erma, em que tudo é um frio e um silêncio profundo?
Tu pensarás em mim? Por esta noite, enfermo,
tendo os olhos em febre e a voz cheia de sustos,
eu penso em ti, no teu amor e na promessa
muda que o teu olhar me fez e que eu espero.

(Que dor de não saber se tu pensas em mim!)

Sob a tenda da noite estrelada de outono,
que eu contemplo através os cristais da janela,
junto ao manso tepor da lâmpada que escuta
— antiga confidente — os meus sonhos e as minhas
vigílias de tormento, eu penso em ti, divina.

(E tu talvez nem te recordes deste ausente!)

Penso em ti. Penso e evoco o teu vulto adorado.
Penso nas tuas mãos — um lis de cinco pétalas —
que, em vez de sangue, têm luar dentro das veias;
nos teus olhos, que são Noturnos de Chopin
agonizando à luz de uma tarde de sonho;
na tua voz, que lembra um beijo que se esfolha.
Penso.

(E nem sei se tu também pensas em mim!)

Talvez não. No tranquilo altar da tua alcova,
onde se extingue a luz de um velho candelabro
como uma lâmpada votiva, tu adormeces
sorrindo ao Anjo fiel que as tuas pálpebras fecha
para que tu não tenhas sonhos maus.

E eu penso
em ti, sem sono, a sós, angustiado e febril,
em ti, que nem eu sei se te lembras de mim…

Alceu Wamosy  In Coroa de Sonho, 1923
I Parte – Jardim Noturno

O Grande Sonho

… e eu sonho que hás de vir. Sonho que um dia
mais ardente e mais bela do que eras,
virás encher de graça e de harmonia
meu jardim de tristíssimas quimeras.

Sonho que hás de trazer toda a alegria,
todo o encanto das tuas primaveras,
ou que em um reino antigo de poesia,
o meu amor, entre rosais, esperas.

E fico na ilusão de que tu vieste
E nesse sonho de ouro mergulhado,
o teu vulto alvoral surgindo vejo
sobre as próprias feridas que fizeste…

E fico na ilusão de que tu vieste
o bálsamo estendendo do teu beijo,
sobre as próprias feridas que fizeste…

Alceu Wamosy In Coroa de Sonho, 1923
III Parte – Coroa de Sonho

Em Lilás e Cinza

Minha alma, agora, é como uma janela aberta 
para o infinito azul de uma hora de saudade: 
Todo o imenso langor da tarde em sombra a invade, 
enchendo-a de uma luz dúbia, esmaiada, incerta. 

Não sei que estranhas mãos erguem véus de abandono, 
num divino silêncio, entre minha alma e a vida, 
para ela adormecer de distância, esquecida, 
como uma flor serrôdia, às caricias do outono… 

Alceu Wamosy, In Coroa de Sonho, 1923
I Parte – Jardim Noturno

Intenção

Ó cisne negro do meu sonho, 
arcanjo triste e cismador, 
teu gesto lembra, para o amor, 
um lírio místico e tristonho. 

Nas tuas mãos longas deponho 
meu coração, como uma flor… 
Ó cisne negro do meu sonho, 
arcanjo triste e cismador. 

E nestas rimas que componho 
dos olhos teus sob o esplendor, 
no sacrifício mais risonho 
a alma vou aos teus pés depor 
o cisne negro do meu sonho!… 

Alceu Wamosy, In Coroa de Sonho, 1923 
I Parte – Jardim Noturno

Sol Amigo

Este raio de sol, dourado e quente,
De uns tempos pra cá, todos os dias,
Vem trazer-me a sua luz alegremente,
E vem povoar-me a alcova de alegrias…

Este raio de sol, que, quando ausente
Fica, pelas manhãs tristes e frias,
Na aridez do meu peito deixa a ardente
Amargura das fundas nostalgias;

Este raio de sol, é meu amigo,
E é o único, talvez, que não se esquece
De vir saudar-me e conviver comigo.

E que espalha com a luz serena e calma,
Na alegria piedosa de uma prece,
Um batismo de amor sobre a minha alma!

Alceu Wamosy, In Flâmulas, 1913

O Meu Anjo

Estende as asas palpites e mansas,
Brandas, aéreas, tépidas, serenas,
Como um pálio de amor e de esperanças,
Sobre os meus males, sobre as minhas penas!

Desçam eflúvios mágicos, bonanças 
Infinitas, etéreas cantilenas,
Num chuveiro de risos de crianças,
E de perfumes castos de açucenas! 

Tudo desça, cantando, das tuas asas,
Sobre minha alma cheia de abandono,
Que a orfandade do amor, de mágoas junca…

Para eu sonhar na luz em que me abrasas…
Para eu poder dormir um grande sono,
Um sono bom… que não se acabe nunca…

Alceu Wamosy, n Na Terra Virgem, 1914

Duas Almas

A Coelho da Costa

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e, sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua…
Hás de levar contigo uma saudade minha…

Alceu Wamosy, In Coroa de Sonho, 1923
III Parte – Coroa de Sonho

Sonho Humilde

Assim te quero amar; quero adorar-te assim,
sempre de joelhos, sempre, ó mármore sagrado;
e que teu corpo ideal não seja, para mim,
mais que um horto de sonho, ou que um jardim fechado.

Em todo amor defeso há um encanto sem fim,
que o faz extreme e leal, lúcido e iluminado:
A mulher que se adora é a Torre de Marfim,
mais alta do que o mal, para além do pecado.

O amor deve viver perpetuado no sonho!
Só desejar é bom: Possuir é renunciar
à ilusão, que nos torna o desejo risonho.

Ter só teu corpo é ter um tesouro maldito;
mas, possuir-te na alma e adorar-te no olhar,
é ter o céu inteiro, é ter todo o infinito!

Alceu Wamosy, In Coroa de Sonho, 1923
III Parte – Coroa de Sonho