Alexander Search

Para alguém que toca

Não pares essa música isolada
Que, como brisa, por mim vem passar
Perdida na calma do anoitecer,
Melodia só a meio escutada
Tal como o som do imenso mar
Que, no movimento, encontra prazer.

Pois em teu ritmo suave e repetido,
Tu, nessa canção em metro desigual,
Em mim acordas a espiritualidade,
Num alargar e morrer do sentido
Que aparece à consciência natural,
Como para o Tempo a Eternidade.

Alexander Search In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999

Pela Estrada

Ora aqui vamos com a vida a brilhar
No mar dourado da luz do momento,
E no rosto uma frescura a adejar —
Uma frescura de alma em movimento.

Colinas acima! Os vales galgando!
Ora na planície mais devagar!
Balança a carroça nas curvas, guinando,
Na terra, em silêncio, ora a deslizar!

Mas temos de ir à cidade ou lugar,
E nos olhos já a pena aparece.
Pudéssemos sempre continuar
Ao ar e ao sol que bate e aquece;

Em estrada infinita, num andar a gosto,
Em eterno e liberto encantamento,
Com o sol à volta, batendo no rosto —
Uma frescura de alma em movimento!

Alexander Search In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999

Um dia de Sol

Eu amo as coisas que as crianças amam,
Mas em compreensão funda, acrescida,
Que eleva a minha alma, de anelante,
Sobre aqueles onde inda dorme a vida

Tudo o que é simples e é brilhante,
Despercebido à mais aguda mente,
Com infantil e natural prazer
Faz-me chorar, orgulhosamente.

Eu amo o sol com o seu brilho intenso,
O ar, como se pudesse abraçar
Com minha alma sua vastidão,
Embriagado de tanto o olhar.

E amo os céus com tal alegria
Que me faz de minha alma admirar,
Uma alegria que nada detém,
Uma emoção que não sei controlar.

Aqui estendido deixem-me ficar
Diante do sol, da luz absorvida,
E em glória deixem-me morrer
Bebendo fundo da taça da vida;

Absorvido no sol e espalhado
Por sobre o infinito firmamento
Como gotas de orvalho, dissolvido,
Perdido num louco arrebatamento;

Misturado em fusão com toda a vida,
Perdido em consciência, impessoal,
Fico parte da força e da tensão,
Pertença duma pátria universal;

E, de modo estranho e indefinido,
Perdidos no Todo, um só vivente,
Essa prisão a que eu chamo a alma
E esse limite a que chamo mente.

1908

Alexander Search In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999 – Heterónimo de Fernando Pessoa

Nirvana

Um não-existir dentro do Ser,
Um etéreo não-ser fundo sentido,
Uma mais que real Idealidade,
Sujeito e objecto um todo unido.

Nem Vida ou Morte, razão ou sem-razão,
Mas fundo sentir do não-sentimento,
Que calma profunda! Mais funda que angústia,
Talvez como um pensar sem pensamento.

Beleza e fealdade, amor e ódio,
Virtude e vício — tudo já estranhezas;
Essa paz toda calma apagará
De nossa vida a eterna incerteza

Um sossego de toda a humana esp’rança,
Um fim de exausto, febril respirar…
A alma em vão tacteia a expressão certa;
A lógica da fé vai ultrapassar

Um oposto de alegria, do fundo
Desconsolo pela vida que temos,
Um acordar para o sono que dormimos
Um dormir para a vida que vivemos.

Tudo diferente da vida que é nossa
E do que atravessa o nosso pensar;
É um lar se vida nos é túmulo,
É um túmulo se nossa vida um lar.

Tudo o que choramos e o que aspiramos,
Como criança ao peito, ali está,
E seremos mais do que desejamos
E nossas almas malditas terão paz.

1906

Alexander Search In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999 – Heterónimo de Fernando Pessoa,

Sonhos

Cada dia que passa faz-me pensar 
E reflectir sobre quem ele traiu, 
Que enquanto viveu nada fui ganhar 
Com a lama vil onde a alma caiu. 

Até de meus sonhos a vida me deixa 
Na maré nu, na areia, em solidão, 
Desolado que, inda vivo, não esteja 
Seguindo veloz no barco da acção. 

Há uma beleza no mundo exterior, 
No monte ou planície onde chega a vista 
Que já é consolo à dúvida e à dor, 
Mas, Oh! A beleza que o mundo conquista 

Nem Palavra ou verso a pode imaginar 
Nem a mente humana, só por si, forjar! 

Alexander Search, in “Poesia” Heterónimo de Fernando Pessoa

Quem Sonha Mais?

 

Quem sonha mais, vais-me dizer — 
Aquele que vê o mundo acertado 
Ou o que em sonhos se foi perder? 

O que é verdadeiro? O que mais será — 
A mentira que há na realidade 
Ou a mentira que em sonhos está? 

Quem está da verdade mais distanciado — 
Aquele que em sombra vê a verdade 
Ou o que vê o sonho iluminado? 

A pessoa que é um bom conviva, ou esta? 
A que se sente um estranho na festa? 

Alexander Search, in “Poesia” – Heterónimo de Fernando Pessoa