Antero de Quental

Despondency

Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram 
Ninho e filhos e tudo, sem piedade… 
Que a leve o ar sem fim da soledade 
Onde as asas partidas a levaram… 

Deixá-la ir, a vela, que arrojaram 
Os tufões pelo mar, na escuridade, 
Quando a noite surgiu da imensidade, 
Quando os ventos do Sul levantaram… 

Deixá-la ir, a alma lastimosa, 
Que perdeu fé e paz e confiança, 
À morte queda, à morte silenciosa… 

Deixá-la ir, a nota desprendida 
D’um canto extremo… e a última esperança… 
E a vida… e o amor… Deixá-la ir, a vida! 

Antero de Quental, in “Sonetos”

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Amaritudo

Só por ti, astro ainda e sempre oculto, 
Sombra do Amor e sonho da Verdade, 
Divago eu pelo mundo e em ansiedade 
Meu próprio coração em mim sepulto. 

De templo em templo, em vão, levo o meu culto, 
Levo as flores d’uma íntima piedade. 
Vejo os votos da minha mocidade 
Receberem somente escárnio e insulto. 

À beira do caminho me assentei… 
Escutarei passar o agreste vento, 
Exclamando: assim passe quando amei! — 

Oh minh’alma, que creste na virtude! 
O que será velhice e desalento, 
Se isto se chama aurora e juventude? 

Antero de Quental, in “Sonetos”

A uma Mulher

Para tristezas, para dor nasceste. 
Podia a sorte pôr-te o berço estreito 
N’algum palácio e ao pé de régio leito, 
Em vez d’este areal onde cresceste: 

Podia abrir-te as flores — com que veste 
As ricas e as felizes — n’esse peito: 
Fazer-te… o que a Fortuna há sempre feito… 
Terias sempre a sorte que tiveste! 

Tinhas de ser assim… Teus olhos fitos, 
Que não são d’este mundo e onde eu leio 
Uns mistérios tão tristes e infinitos, 

Tua voz rara e esse ar vago e esquecido, 
Tudo me diz a mim, e assim o creio, 
Que para isto só tinhas nascido! 

Antero de Quental, in “Sonetos”

Voz de Outono

Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
— «Mais te valera, nú e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima soidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel
deveza, Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!

Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba vária,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor… que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!» —

Antero de Quental, in “Sonetos”

Porque Descrês, Mulher, do Amor, da Vida?

 

Porque descrês, mulher, do amor, da vida? 
Porque esse Hermon transformas em Calvario? 
Porque deixas que, aos poucos, do sudario 
Te aperte o seio a dobra humedecida? 

Que visão te fugio, que assim perdida 
Buscas em vão n’este ermo solitario? 
Que signo obscuro de cruel fadario 
Te faz trazer a fronte ao chão pendida? 

Nenhum! intacto o bem em ti assiste: 
Deus, em penhor, te deu a formosura; 
Bençãos te manda o céo em cada hora. 

E descrês do viver?… E eu, pobre e triste, 
Que só no teu olhar leio a ventura, 
Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora? 

Antero de Quental, in ‘Sonetos’

Desesperança

 

Vai-te na aza negra da desgraça, 
Pensamento de amor, sombra d’uma hora, 
Que abracei com delírio, vai-te, embora, 
Como nuvem que o vento impele… e passa. 

Que arrojemos de nós quem mais se abraça, 
Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora 
D’essa alma o sangue, com que vigora, 
Como amigo comungue á mesma taça! 

Que seja sonho apenas a esperança, 
Enquanto a dor eternamente assiste. 
E só engano nunca a desventura! 

Se era silêncio sofrer fora vingança!.. 
Envolve-te em ti mesma, ó alma triste, 
Talvez sem esperança haja ventura! 

Antero de Quental, in ‘Sonetos’

Aparição

 

Um dia, meu amor (e talvez cedo,
Que já sinto estalar-me o coração!)
Recordarás com dor e compaixão
As ternas juras que te fiz a medo…

Então, da casta alcova no segredo,
Da lamparina ao trémulo clarão,
Ante ti surgirei, espectro vão,
Larva fugida ao sepulcral degredo…

E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidos
E aflitos ais, estenderás os braços
Tentando segurar-te aos meus vestidos…

— «Ouve! espera!» — Mas eu, sem te escutar,
Fugirei, como um sonho, aos teus abraços
E como fumo sumir-me-ei no ar!

Antero de Quental, in “Sonetos”

Sepultura Romântica

 

 

Ali, onde o mar quebra, n’um cachão 
Rugidor e monótono, e os ventos 
Erguem pelo areal os seus lamentos, 
Ali se há-de enterrar meu coração. 

Queimem-no os sóis da adusta solidão 
Na fornalha do estio, em dias lentos; 
Depois, no inverno, os sopros violentos 
Lhe revolvam em torno o árido chão… 

Até que se desfaça e, já tornado 
Em impalpavel pó, seja levado 
Nos turbilhões que o vento levantar… 

Com suas lutas, seu cansado anseio, 
Seu louco amor, dissolva-se no seio 
D’esse infecundo, d’esse amargo mar! 

Antero de Quental, in “Sonetos”