António Ramos Rosa

O momento de

Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.

Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. 0lha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?

Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.

António Ramos Rosa. A nuvem sobre a página. Lisboa: Dom Quixote, 1978.

Não desisti de habitar a arca azul

Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo,
A minha ascendência é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios elétricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranqüilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e o ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro como um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitetura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensível
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.

António Ramos Rosa, em “Três”, 1975

Regressei ao corpo insuperável

Regressei ao corpo insuperável
à infância do ser, à inocência viva
Já não sou o meu nome, sou músculo suave
do fogo do universo
sou a liberdade límpida
de um rio silencioso que nasce
em cada instante do princípio do mundo
Não me pertenço
Os meus contornos
são os confins em que o teu corpo começa
O meu modo de ser é interrogativo e desce
ao centro do impossível e envolve
a totalidade inacessível
num enlace de água
em que o ser e o não ser se conjugam no real absoluto
Entre mim e ti não há pontes
a minha diferença respira
a tua noite e o meu dia, o teu sol e a tua lua
Estou vivo contigo na presença e na ausência
tu és tu, nada nos separa porque a separação
é a linha da aliança unitiva
a respiração do vivo amor entre nós
nos faz nascer.
António Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa In “Viagem Através de uma Nebulosa”, 1960

Uma voz na pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo, não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida. Estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra

António Ramos Rosa In Facilidade do ar, 1990

 

Quero dormir na água das palavras

Quero dormir na água das palavras
que amam o silêncio
e a lentidão da luz
que é o fulgor de uma evidência indecifrável

Quero ser a concha do ingénuo sossego
de uma flor branca
como o monótono murmúrio
de uma respiração solar

Quero ser o ouvido de veludo
de um insecto azul
e quero beber a linfa do olvido
numa boca de argila
para sentir a monotonia ardente
da garganta da terra

António Ramos Rosa, Numa Folha, Leve e Livre, 2013

Eu quero num repouso abrir os olhos sob as pálpebras

Eu quero num repouso abrir os olhos sob as pálpebras
não para ver alguma figura mas para me libertar de todas as imagens
e ver o que talvez seja o veludo do teu silêncio
ou a sombra da tua sombra como um manto da distância
Se é a minha entrega que suscita o teu velado abandono
ou se és tu que o geras com o teu silêncio
não o sei dizer mas sei que o doce movimento de água
dos músculos do meu corpo está em consonância com o teu ser
E se isto é apenas um imaginar das veias
o meu repouso respira como um astro de sombra

António Ramos Rosa, In “O deus da incerta ignorância seguido de Incertezas ou evidências”, 2001

Nuvens

Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.

Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.

Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.

 António Ramos Rosa, in Antologia Poética, 1986.

A Partir da Ausência

Imaginar a forma
doutro ser Na língua,
proferir o seu desejo
O toque inteiro

Não existir

Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro

Um muro vivo preso a mil raízes

Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo

Era com o sol E era
um corpo

Onde agora a mão se perde
E era o espaço

Onde não é

O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?

As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas,
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema

António Ramos Rosa, in “A Nuvem Sobre a Página”

Nascimento Último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
Respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que flui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

António Ramos Rosa In Cada árvore é um ser para ser em nós, 2002

Gisela

O que eu te digo alguém o disse
e de tal modo
que pouco importa que o dissesse
fosse quem fosse
e se ninguém o disse
poderá vir a dizê-lo
o que não impede
a urgência de dizer
neste instante

Em cada instante
o mistério é vivo
no silêncio
e na palavra que o diz

O mistério é dito
não pelo que se diz
mas pelo próprio mistério
na obscuridade viva
e na palavra não morre
em cada sílaba vibra
se a palavra é viva
música
de um mistério indefinível

António Ramos Rosa
21-05-05

O instante do silêncio

Se puderes aceitar a nudez
como uma graça ou uma pobreza
talvez encontres
as linhas de força inexplicadas.
Se com o teu peso irremediável,
proferires a palavra que mal pousa
poderás sustentar a magnética felicidade
desse instante,
ameaçado mas vivo,
do indecifrável silêncio da nudez

António Ramos Rosa In A imagem e o desejo, 1998

Para que uma só coisa

Para que uma só coisa
vibre
na sua presença nua
para além da conjunção dos possíveis

é preciso que o silêncio a dispa
e o seu nome seja o seu próprio pudor

António Ramos Rosa In A intacta ferida, 1991

Da grande página aberta do teu corpo

Da grande página aberta do teu corpo
sai um sol verde
um olhar nu no silêncio de metal
uma nódoa no teu peito de água clara

Pela janela vejo a pequenina mão
de um insecto escuro
percorrer a madeira do momento intacto
meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa
ó favos de sol

Da grande página aberta
sai a água de um chão vermelho e doce
saem os lábios de laranja beijo a beijo
o grande sismo do silêncio
em que soberba cais vencida flor

António Ramos Rosa, em “Nos Seus Olhos de Silêncio”.

Árvores

O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.

António Ramos Rosa In Cada árvore é um ser para ser em nós, 2002

Regresso

Perguntas? Viajo
na liberdade clara
de um sossegado mar
sem sombras nem relâmpagos

Nada mais do que estar
em natural potência
como num esquecido ninho
de um incessante regresso

Sem nostalgia nem esperança
entro na boca da terra
onde encontro a nascente
e o movimento único
é o sossego presente

António Ramos Rosa, in O Não e o Sim

Voz silenciosa

O que é ser uma figura do silêncio?
O que é ser apenas o hálito de uma folha?
Alguém me descobrirá no meu círculo minúsculo?
Quem falará às pedras? Quem dirá a palavra?
Inclino-me sobre a água com um suave desejo
e quase canto no silêncio, adormecendo.
Amo a luz tranquila e o meu pequeno corpo
leve como uma clara chama. O mistério é meu.
Mas se alguém vier acariciar as pedras
eu cantarei na sua boca, descerei ao fundo
da garganta e serei nas suas veias
o frémito feliz de uma pedra harmoniosa.

António Ramos Rosa, in O Não e o Sim

No jardim

Flutuávamos errantes e vazios
nas leves lufadas da folhagem
e entre espelhos opacos e redondos
feitos de argila e pedras com urtigas.
Os murmúrios obscuros, os rumores dispersos
casavam-se ao olvido e à espessura do longínquo.
No aroma da hora flutuávamos devagar
e se nos abraçávamos as coniventes cortesias
vegetais tornavam-nos vegetais.
Sentíamos no peito os majestosos montes
e o mar estava perto entre duas colinas.
Às vezes as nossas pálpebras desciam
para reter a luz a suave corrente
que de tão longe vinha, do diadema do mundo.
Cada pedra nos dizia o solitário solo
e a imobilidade pura de um nupcial sossego.

António Ramos Rosa In A imagem e o desejo, 1998