Armando Artur

(EXCURSÃO PELO RIO CONGO EXCURSÃO PELA MEMÓRIA)

(A Eugénia Neto
e Luandino Vieira)

Nesta hora do pôr-do-sol
sobre o barco e águas
corredoras
algas caladas
aves acocoradas,

eu sei simplesmente
que sou um dos convivas
a bordo da alegria de Maio de 1987
pelos mistérios do rio Congo.

na memória desenha-se minha gente:
crianças guardando a fome, a sede, o luto,
por detrás do amargo sorriso.

a bordo desta efémera alegria
sei apenas que sou um dos convivas
de entre os que trazem na lembrança
seus sonhos, suas bandeiras
suas chagas abertas ao tempo.

agora que importa falar do vento,
das águas, do sol, dos pássaros?
ignoro a natureza das coisas.
falo apenas desta dor que me acompanha,
do sangue que me nasce do Índico
e desagua no meu coração.

o barco e as águas correm…
segredo é a mensagem
que elas me anunciam.
meu rosto denuncia certa impaciência
e meus olhos trémulos nada ocultam
e nada dizem, apenas calam

(agora que é noite
há menos dureza na lembrança
somente alguns versos
e alguns rostos que contemplei.)

Armando Artur, In O Hábito das Manhãs, 1990

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(Abro a janela)

Abro a janela
e fixo o olhar
no sol que espreita
devagarinho

(afinal, as manhãs sobem
Como um grito de esperança)

no remanso da aurora
chega-me o perfume adocicado
das espigas de milho.

viajo pela memória.
e como uma ave
ávida de migração urgente
viajo às ribas distantes
onde o futuro se desenha livre.

(com a ânsia à flor da pele
aqui permaneço em vigília
e, inteira, a vida se inscreve
em pleno dia.)

Armando Artur, In O Hábito das Manhãs, 1990

infância

Sempre o mesmo desejo
de voltar às praias
da infância:
argúcia dos dedos na areia
alegria dos olhos na espuma…

mas como voltar aos trilhos
apagados?
e como voltar às fontes
incendiadas?

(ao invés deste desejo
eis-me espiando o futuro
que nunca vivo!)

Armando Artur

Narcisismo

Não é o encanto do teu rosto
(afinal, que medida tem uma beleza?)
nem os contornos da tua paisagem
que me endoidecem ante a lonjura
de percorrê-los,

(é esta urgência de amar
Mesmo não sabendo se a ti ou a mim)

Armando artur In Os Dias em Riste

Dimensão humana

A água, a pedra, o mar,
O lume, a chuva, a folha.
A noite, o vento, o luar,
O rio, a chama, a hulha.
Têm a dimensão humana!
(Pois é no homem que tudo
se conjuga de forma imperativa)

Armando artur In A Quintessência do Ser

Amor: Ânsia que nunca chega a ser

Não sei se te amo
não sei se te abomino.
mas, que mistério
encerram teus olhos
que me inspiram vida?
diz-me, que o tempo corre …
e a vida passando.
diz-me, sibilina
que as cigarras cantam …
lá o sol reclinando.
diz-me, que as ondas
auspiciosas dos teus olhos
harmonizam-me os passos
e convidam-me a partir.
sim, diz-me o segredo
que envolve teus olhos
pois amor é esta ânsia
que nunca chega a ser!

Armando Artur, In Espelho dos Dias, 1986

(Extrato de um poema inacabado. Poema que só inacabado ficou certo)

Assim que a porta dos dias
se fechava aos nossos rostos
tu tecias versos de espuma
nas páginas da angústia
e marcando um ponto de vida
no arco-íris da nossa insónia
eu aprendia no azul dos teus olhos
outra maneira de ser

Armando Artur, In Espelho dos Dias, 1986

Não importa

Não importa esta fronteira
que em vão nos demarcam

quando a viagem prometida
ainda se anuncia

não importa este fogo
que em vão nos ateiam
quando o bago da esperança
amadurece nos nossos poros

não importa esta tempestade
que em vão nos fustiga
quando o sol antigo e claro
ainda se levanta.

Armando Artur, In O Hábito das Manhãs, 1990

Repara como as manhãs

fingidamente acontecem
nas nossas mãos.
O hábito das manhãs
é tão antigo e visível
como o longo e indelével rasto
deixado pelas estações.

Repara como o sol brilha,
Incólume, sobre o mar funde.

(Será longe, ainda o lugar
Do exílio?)

Armando Artur, In Estrangeiros de Nós Próprios, 1996

 

Papel em branco

Frente a frente estou eu
Com o papel em branco.
Para este inadiável duelo

Entre mim e o papel,
Invoquei a memória da terra e dos homens
E as sílabas relampearam no verso do papel.

Armando Artur, In Os Dias em Riste, 2001

(Redimensão)

Os astrofísicos
acreditam
na curvatura do universo.

E eu, qual quê, qual carapuça!…

Acredito na redoma de água
Que são os teus olhos
Onde inteiro me dissolvo.

Acredito no néctar e no pólen
que são o feitiço dos teus beiços
onde secretamente pouso,
e depois me inebrio
e me ignoro

Acredito no bosque e na gruta
que são a magia do teu delta
onde, impassível, aguardo pela
próxima estação

Armando Artur, In Os Dias em Riste, 2001

Poesia III

A poesia é meu destino,
Minha eira, minha chama,
Minha lavra, minha ira.
Ela também é meu breve instante
E eterno paradoxo.

Armando Artur, In A Quintessência do Ser, 2004

(Futuro: Essa transcendência)

Onde
começamos os caminhos
da transcendência?

no grito
inadiável sobre o tempo
ou no pequeno gesto
que sempre se principia?
onde
a imagem e o retrato
do sonho que nos habita?

ou ali onde a vida
se adia constantemente
e o mar e a madrugada
se enamoram nas areias?

Armando Artur, In O Hábito das Manhãs, 1990

No Interior do Amor

No interior do amor
há sempre um fruto
lentamente amadurecendo
é um fruto inquieto
desprendido das plumas
duma ave nocturna.

(no interior do amor
há sempre um fruto
espreitando devagarinho
─ promessa infalível do amor.)

Armando Artur, In O Hábito das Manhãs, 1990

Quintessência do Amor

Encontrei o sentido
obscuro de todas as coisas
quando o luar foi apenas
a imitação dos teus olhos.

(mas confesso: aprendi a amar-te na imaginação!)

Armando Artur, In Espelho dos Dias, 1986