Cecília Meireles

Leilão de Jardim

Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?

Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?

Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?

(Este é o meu leilão.)

Cecília Meireles

Anúncios

De Que São Feitos os Dias?

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

Cecília Meireles, in ‘Canções’

Se te Abaixasses, Montanha

Se te abaixasses, montanha, 
poderia ver a mão 
daquele que não me fala 
e a quem meus suspiros vão. 

Se te abaixasses, montanha, 
poderia ver a face 
daquele que se soubesse 
deste amor talvez chorasse. 

Se te abaixasses, montanha, 
poderia descansar. 
Mas não te abaixes, que eu quero 
lembrar, sofrer, esperar. 

Cecília Meireles, in ‘Poemas (1947)’

De Longe Te Hei-de Amar

 

 

De longe te hei-de amar 
– da tranquila distância 
em que o amor é saudade 
e o desejo, constância. 

Do divino lugar 
onde o bem da existência 
é ser eternidade 
e parecer ausência. 

Quem precisa explicar 
o momento e a fragrância 
da Rosa, que persuade 
sem nenhuma arrogância? 

E, no fundo do mar, 
a Estrela, sem violência, 
cumpre a sua verdade, 
alheia à transparência. 

Cecília Meireles, in ‘Canções’

Romantismo

 

 

Quem tivesse um amor, nesta noite de lua, 
para pensar um belo pensamento 
e pousá-lo no vento! 

Quem tivesse um amor – longe, certo e impossível – 
para se ver chorando, e gostar de chorar, 
e adormecer de lágrimas e luar! 

Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas, 
partisse por nuvens, dormente e acordado, 
levitando apenas, pelo amor levado… 

Quem tivesse um amor, sem dúvida e sem mácula, 
sem antes nem depois: verdade e alegoria… 
Ah! quem tivesse… (Mas, quem teve? quem teria?) 

Cecília Meireles, in ‘Mar Absoluto e Outros Poemas’

O Que Amamos Está Sempre Longe de Nós

 

 

O que amamos está sempre longe de nós: 
e longe mesmo do que amamos – que não sabe 
de onde vem, aonde vai nosso impulso de amor. 

O que amamos está como a flor na semente, 
entendido com medo e inquietude, talvez 
só para em nossa morte estar durando sempre. 

Como as ervas do chão, como as ondas do mar, 
os acasos se vão cumprindo e vão cessando. 
Mas, sem acaso, o amor límpido e exacto jaz. 

Não necessita nada o que em si tudo ordena: 
cuja tristeza unicamente pode ser 
o equívoco do tempo, os jogos da cegueira 

com setas negras na escuridão. 

Cecília Meireles, in ‘Solombra’

Ninguém me Venha Dar Vida

 

 

Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser
e não me quero encontrar,
que estou dentro de um navio
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.

Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.

Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.

Cecília Meireles, in ‘Poemas (1947)’

Apresentação

 

 

Aqui está minha vida — esta areia tão clara 
com desenhos de andar dedicados ao vento. 

Aqui está minha voz — esta concha vazia, 
sombra de som curtindo o seu próprio lamento. 

Aqui está minha dor — este coral quebrado, 
sobrevivendo ao seu patético momento. 

Aqui está minha herança — este mar solitário, 
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento. 

Cecília Meireles, in ‘Retrato Natural’

Canção do Amor-Perfeito

 

 

Eu vi o raio de sol 
beijar o outono. 
Eu vi na mão dos adeuses 
o anel de ouro. 
Não quero dizer o dia. 
Não posso dizer o dono. 

Eu vi bandeiras abertas 
sobre o mar largo 
e ouvi cantar as sereias. 
Longe, num barco, 
deixei meus olhos alegres, 
trouxe meu sorriso amargo. 

Bem no regaço da lua, 
já não padeço. 
Ai, seja como quiseres, 
Amor-Perfeito, 
gostaria que ficasses, 
mas, se fores, não te esqueço. 

Cecília Meireles, in ‘Retrato Natural’

Canção

 

 

Pus o meu sonho num navio 
e o navio em cima do mar; 
— depois, abri o mar com as mãos, 
para o meu sonho naufragar. 

Minhas mãos ainda estão molhadas 
do azul das ondas entreabertas, 
e a cor que escorre dos meus dedos 
colore as areias desertas. 

O vento vem vindo de longe, 
a noite se curva de frio; 
debaixo da água vai morrendo 
meu sonho, dentro de um navio… 

Cecília Meireles, in ‘Viagem’

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve. . .

— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes..

— palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

— e um dia me acabarei.

Cecília Meireles

Personagem

Teu nome é quase indiferente
e nem teu rosto já me inquieta.
A arte de amar é exactamente
a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silêncio, obscuro, disperso.

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existência,
tudo – o espaço evita e consome:
e eu só conheço a tua ausência.

Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho.

Cecília Meireles, in ‘Viagem’