Daniel Faria

Amo o Caminho que Estendes

Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.

Daniel Faria, in “Dos Líquidos”

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Ausência

 

Fala 

Ouvir-te-ei 
Ainda que os segredos 
As amoras me chamem 

Diz-me 
Que existirão lágrimas para chorar 
Na velhice 
Na solidão 

Ainda que acordes os olhos dos deuses 

Fala 

Ouvir-te-ei 
A coragem 

Alguém de nós que já não está 

Daniel Faria, in “Oxálida”

Quero a Fome de Calar-me

 

Quero a fome de calar-me. O silêncio. Único 
Recado que repito para que me não esqueça. Pedra 
Que trago para sentar-me no banquete 

A única glória no mundo — ouvir-te. Ver 
Quando plantas a vinha, como abres 
A fonte, o curso caudaloso 
Da vergôntea — a sombra com que jorras do rochedo 

Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa 
Chaga do pastor 
Que abriu o redil no próprio corpo e sai 
Ao encontro da ovelha separada. Cerco 

Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direcções, estudo-lhes 
A flor — várias árvores cortadas 
Continuam a altear os pássaros. Os caminhos 
Seguem a linha do canivete nos troncos 

As mãos acima da cabeça adornam 
As águas nocturnas — pequenos 
Nenúfares celestes. As estrelas como as pinhas fechadas 

Caem — quero fechar-me e cair. O silêncio 
Alveolar expira — e eu 
Estendo-as sobre a mesa da aliança 

Daniel Faria, in “Dos Líquidos”

Conserto a Palavra

 

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio 
Restauro-a 
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro 
Ilumino-a 

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa 
Reunida numa forma comparada à lâmpada 
A um zumbido calado momentaneamente em exame 

Ela não se come como as palavras inteiras 
Mas devora-se a si mesma e restauro-a 
A partir do vómito 
Volto devagar a colocá-la na fome 

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza 
Como um homem nadando para trás 
E sou uma energia para ela 

E ilumino-a 

Daniel Faria, in “Homens que São como Lugares Mal Situados”

Estranho é o Sono que não te Devolve

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.

Daniel Faria in Explicação das Árvores e de Outros Animais