Eugénio de Andrade

Um simples pensamento

É a música, este romper do escuro.
Vem de longe, certamente doutros dias,
doutros lugares. Talvez tenha sido
a semente de um choupo, o riso
de uma criança, o pulo de um pardal.
Qualquer coisa em que ninguém
sequer reparou, que deixou de ser 
para se tornar melodia. Trazida
por um vento pequeno, um sopro,
ou pouco mais, para tua alegria.
E agora demora-se, este sol materno,
fica comigo o resto dos dias.
Como o lume, ao chegar o inverno.

Eugénio de Andrade In Os Sulcos da Sede, 2001

Música mirabilis

Talvez a ternura
crepite no pulso,
talvez o vento
súbito se levante,
talvez a palavra
atinja o seu cume,
talvez um segredo
chegue ainda a tempo

– e desperte o lume.

 Eugénio de Andrade,  Mar de setembro,  1961

Pequena elegia de Setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade,  Coração do dia, 1958

Sobre as areias

É outra vez a música,
é outra vez
a música que me chama,
outra vez esse esplendor
quase animal
que me procura
e comigo se faz alma
ou primeira manhã sobre as areias.
Eugénio de Andrade, In Rente ao Dizer, 1992 

RILKEANA

De ti e desta nuvem; desta nuvem
branca como voo de pássaro
em manhã de Abril; de ti
e da íntima chama de um fogo
que não consente extinção;
de ti e de mim fazer um só acorde,
um acorde só; para não te perder.

Eugénio de Andrade In Os Sulcos da Sede, 2001

Que diremos ainda?

Vê como de súbito o céu se fecha
sobre dunas e barcos,
e cada um de nós se volta a fixa
os olhos um no outro,
e como deles devagar escorre
a última luz sobre as areias.

Que diremos ainda? Serão palavras,
isto que aflora aos lábios?
Palavras, este rumor tão leve
que ouvimos o dia desprender-se?
Palavras, ou luz ainda?

Palavras, não. Quem as sabia?
Foi apenas lembrança de outra luz.
Nem luz seria, apenas outro olhar.

Eugénio de Andrade In Mar de Setembro, 1961

Na orla do mar

Na orla do mar,
no rumor do vento,
onde esteve a linha
pura do teu rosto
ou só pensamento
(e mora, secreto,
intenso, solar,
todo o meu desejo)
aí vou colher
a rosa e a palma
Onde a pedra é flor,
onde o corpo é alma.
Eugénio de Andrade In Até Amanhã

É assim a música

A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
– sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.

Eugénio de Andrade In Os Lugares do Lume

Tu és a esperança, a madrugada

Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de Setembro,
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
Meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.

Eugénio de Andrade In As Mãos e os Frutos

Somos folhas breves onde dormem

Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
Cada ave se transforma noutro ser.
Eugénio de Andrade In As Mãos e os Frutos

Desde a aurora

Como um sol de polpa escura 
para levar à boca, 
eis as mãos: 
procuram-te desde o chão, 

entre os veios do sono 
e da memória procuram-te: 
à vertigem do ar 
abrem as portas: 

vai entrar o vento ou o violento 
aroma de uma candeia, 
e subitamente a ferida 
recomeça a sangrar: 

é tempo de colher: a noite 
iluminou-se bago a bago: vais surgir 
para beber de um trago 
como um grito contra o muro. 

Sou eu, desde a aurora, 
eu – a terra – que te procuro. 

Eugénio de Andrade, In Obscuro Domínio, 1972

Desde o chão

A pele porosa do silêncio
agora que a noite sangra nos pulsos
traz-me o teu rumor de chuva branca.

O verão anda por aí, o cheiro
violento da beladona cega a terra.
Cega também, a boca procura
trabalhos de amor. Encontra apenas
o nó de sombra das palavras.

Palavras…Onde um só grito
bastaria, há a gordura
das palavras. Palavras…,
quando apetecem claridades súbitas,
o sumo estreme, a ponta extrema
do teu corpo, arco, flecha,
corola de água aberta
ao fogo a prumo do meu corpo.

Do chão ao cume das colinas,
eis as areias. Cala-te.
Deita-te. Debaixo dos meus flancos.
A terra toda em cima. Agora arde. Agora.

Eugénio de Andrade, In Obscuro Domínio, 1972

De maneira mais simples

É apenas o começo. Só depois dói, 
e se lhe dá nome. 
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode 
acontecer da maneira mais simples: 
umas gotas de chuva no cabelo. 
Aproximas a mão, os dedos 
desatam a arder inesperadamente, 
recuas de medo. Aqueles cabelos, 
as suas gotas de água são o começo, 
apenas o começo. Antes 
do fim terás de pegar no fogo 
e fazeres do Inverno 
a mais ardente das estações. 

Eugénio de Andrade, In Os Sulcos da Sede, 2001

Aproxima a boca

Aproxima a boca da nascente: 
não te importes 
se for silêncio só 
o que te chega aos ouvidos: 
é música 
ainda. Tenta uma vez mais 
levantar a mão até ao bafo 
da primeira estrela, 
a pupila atenta 
ao rumor de cada sílaba: 
não tens outro país, não tens 
outro céu. 
Com a boca, com os olhos, 
com os dedos 
procura tocar a terra cheia 
do teu coração. 
Outra vez. 

Eugénio de Andrade, In Sal da Língua, 1995

Cada coisa

Cada coisa tem o seu fulgor, 
a sua música. 
Na laranja madura canta o sol, 
na neve o melro azul. 
Não só as coisas, 
os próprios animais 
brilham de uma luz acariciada; 
quando o inverno 
se aproxima dos seus olhos 
a transparência das estrelas 
torna-se fonte da sua respiração. 
Só isso faz 
com que durem ainda. 
Assim o coração. 

Eugénio de Andrade, In Sal da Língua, 1995

Coração Recente

Eras tu? Era o dia 
acabado de nascer? 

Que rosa abria? Rosa 
ou ardor? Não seria 

só desejo de ser 
um travo de alegria? 

Um fulgor? Um fluir? 
Eras tu? Era o dia? 

Eugénio de Andrade, In Mar de Setembro, 1961

Espera

Horas, horas, sem fim, 
pesadas, fundas, 
esperarei por ti 
até que todas as coisas sejam mudas. 

Até que uma pedra irrompa 
e floresça. 
Até que um pássaro me saia da garganta 
e no silêncio desapareça. 

Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos, 1948 

Inventarei o dia onde contigo

Inventarei o dia onde contigo 
e o Outono corra pelas ruas. 
A luz que pisamos é tão perfeita 
que não pode morrer, como não morre 
o brilho do olhar que te viu despir. 

Eugénio de Andrade, In O Peso da Sombra, 1982