Fernando Pessoa

Mãe, quero ir ao passado, onde estive buscar

Mãe, quero ir ao passado, onde estive buscar 
      Os brinquedos que lá deixei, 
Não digas que a noite está fria, que faz mal o ar, 
      Mal não me farei. 
Quero ir à procura do irmão meu que perdi 
      E sou eu afinal, 
Mas aquele que brincava comigo como nunca vi 
      P’ra loucura igual. 
Quero ir, minha mãe, ao passado — só dois passos 
      Para fora da porta 
Buscar o boneco, e o persa infantil, e os □

Mãe, não me guardes os carros, é luar, vejo bem. 
      Quero ir ver se inda está 
O carro pequeno onde o deixei, se ninguém 
      O tirou de lá. 
Quero ir trazê-lo debaixo do braço, a correr, 
      Quero ir ter ao jardim, 
Mesmo que eu nunca volte, mãe, e ir seja morrer 
      Deixa-me ir lá ao fim. 
Quem compreende o que eu sinto? O carro e o boneco 
      Eram meus, estão ali. 
Não queiras que eu não vá. Vê se os □ ou os perco

Mãe, é tão triste dormir a pensar e a ter pena! 
      Mãe, não to sei dizer… 
Deixa que eu vá, deixa que eu volte à criança pequena!
      E possa esquecer.

15 – 9 – 1934 

Fernando Pessoa, In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Ritmo Interior

Eu quero sentir-te, Maria, dormir
Tão perto ao meu lado,
E tanto, tão fundo, tão bem o sentir
Que possa enganado
Julgar-me vivendo num pálido além
Contigo somente
E numa só alma que as nossas contêm
Amando-te insciente,
Sentindo-te como sentindo-me a mim,
Em mim embebida;
Sem forma ou lugar, com o tempo sem fim
Medindo essa vida.

22 – 6 – 1909

Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Canção

Ide buscá-la, Desejos,
Pela mão a conduzi.
E tu, de amor serena flor,
Traz a alma cheia de beijos
Que eu tenho sede de ti.

Além do sono e do sonho
Nos teus braços quero ir.
(Ah, como é triste tudo o que existe!)
Quero sentir-me risonho
Sem passado nem porvir

E assim eternamente
No teu seio me ficar,
Dúbios, perdidos, os meus sentidos,
Vago ser que apenas sente
Que está além do chorar.

15 – 11 – 1908

Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Cinza

No silêncio das cousas tristes
Ó minha amada,
Só tu para mim existes
Abandonada
De tudo quanto é corpo e realidade
Em tua alma; enfim
Sob a forma sentida da verdade
Dentro em mim.

No sossego das horas mortas
Ó minha amante
Só tu me apareces e exortas
E o Instante
Vive do que em ti vale mais, querida,
Do que o teu ser
O que em ti, cousa íntima e indefinida,
Não saberá morrer.

25 – 9 – 1910
Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Há quanto tempo eu não passava aqui

Há quanto tempo eu não passava aqui
Por esta rua, há dez anos talvez!
Aqui morei, contudo, aqui vivi
Um tempo — uns dois anos ou três.

A rua é a mesma, o novo é quasi nada
Mas ela, se me visse, e o dissesse,
Diria, É o mesmo, e eu ‘stou tão mudada!
Assim a alma lembra e esquece.

Passamos pelas ruas e por gente,
Passamos por nós mesmos, e acabamos;
Depois na ardósia, a Mão Inteligente
Apaga o símbolo, e recomeçamos.

12 – 3 – 1928

Fernando Pessoa In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Meu coração foi o que o mar levou

Meu coração foi o que o mar levou
Quando, no alto da maré,
Tudo o que a onda é me arremessou
Ao pé.
Mas se o levou só o trouxe, como a imagem
Que reflectida ao ser assim,
Forma na sombra o rasto da paisagem
Em mim.
30 – 10 – 1933

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Na imensa solidão

Na imensa solidão
De eu ser apenas eu,
Sentindo o coração
Como somente meu,

O vento me acompanha
Com seu ruído na noite
E eis-me só na montanha
Sob o divino açoite.

Não há contudo nada
Em meu torno senão
Solidão calada
E um som de coração.

3 – 7 – 1930

Fernando Pessoa In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Um piano na minha rua…

Um piano na minha rua…
Crianças a brincar…
O sol de domingo e a sua
Alegria a doirar…

A mágoa que me convida
A amar todo o indefinido…
Eu tive pouco na vida
Mas dói-me tê-lo perdido.

Mas já a vida vai alta
Em muitas mudanças!
Um piano que me falta
E eu não ser as crianças

25 – 2 – 1917

Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Escuta-me piedosamente

Escuta-me piedosamente.
Não vale a pena amar-me não,
Mas o que o meu coração sente —
Ah, quero que te passe rente
À ideia do teu coração…
Quero que julgues que podias
Se quisesses, amar-me. Só
Saber isso consolaria
Minha alma erma de alegria…
Ter a certeza do teu dó!…
Teu dó, o teu quasi carinho…
Qualquer sentimento por mim…
Que não me deixasse sozinho…
Eu posso construir um ninho,
Com o pouco que me vem de ti…
Eu tenho de mim tanta pena
Qu’ria ao menos que tu também
Viesses ter pena serena
Não de mim ou da minha pena,
Essa pena que ninguém tem.
c. 2-10-1915

Fernando Pessoa  In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Não creio ainda no que sinto

I

Não creio ainda no que sinto —
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração…

Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali fica parada.

Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.

II
Tudo o que sinto se concentra
Em te sentir
A boca, o amor, o beijo que entra
E sai a rir.

Tudo o que penso se define
Em sentir preso
Teu lábio contra os meus □

□ espaço deixado em branco pelo autor

9 – 2 – 1920

Fernando Pessoa In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Morde-me com o querer-me que tens nos olhos

Morde-me com o querer-me que tens nos olhos
Despe-te em sonho ante o sonhares-me vendo-te,
Dá-te vária, dá sonhos de ti própria aos molhos
Ao teu pensar-me querendo-te…

Desfolha sonhos teus de dando-te variamente,
Ó perversa, sobre o êxtase da atenção
Que tu em sonhos dás-me… E o teu sonho de mim é quente
No teu olhar absorto ou em abstracção…

Possue-me-te, seja eu em ti meu spasmo e um rocio
De voluptuosos eus na tua coroa de rainha…
Meu amor será o sair de mim do teu ócio
E eu nunca serei teu, ó apenas-minha?

22 – 5 – 1913

Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Eu me resigno. Há no alto da montanha

Eu me resigno. Há no alto da montanha
Um penhasco saído,
Que, visto de onde toda a coisa é estranha,
Deste vale escondido,
Parece posto ali para o não termos,
Para que, vendo-o ali,
Nos contentemos só com o ali vermos
No nosso eterno aqui…

Eu me resigno. Esse penhasco agudo
Talvez alcançarão
Os que na força firme põem tudo.
De teu próprio silêncio altivo escudo,
Não vás, meu coração.

28 – 10 – 1933

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança.

   Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas por que deixou que a Vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não poderia viver senão acarinhado, porque deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevenido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passa usam-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.

Sinto o tempo

Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa. O pobre quarto alugado onde passei uns meses, a mesa do hotel de província onde passei seis dias, a própria triste sala de espera da estação de caminho-de-ferro onde gastei duas horas à espera do comboio — sim, mas as coisas pequenas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da boca de Deus roça-me pela face lívida.

O tempo! O passado! Aí algures, uma voz, um canto, um perfume ocasional levantou em minha alma o pano de boca das minhas recordações… Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.

Quando criança eu apanhava os carrinhos de linha

Quando criança eu apanhava os carrinhos de linha. Amava-os com um amor doloroso — que bem que me lembro — porque tinha por eles não serem reais uma imensa compaixão.

Quando um dia consegui haver às mãos o resto de umas pedras de xadrez, que alegria não foi a minha! Arranjei logo nomes para as figuras e passaram a pertencer ao meu mundo de sonho.

Essas figuras definiam-se nitidamente. Tinham vidas distintas. Morava um — cujo carácter eu decretara violento e sportsman — numa caixa que estava em cima da minha cómoda, por onde passeava, à tarde quando eu, e depois ele, regressávamos do colégio, um carro eléctrico de interiores de caixas de fósforos de madeira, ligadas não sei por que arranjo de arame. Ele saltava sempre com o carro a andar. Ó minha infância morta! Ó cadáver sempre vivo no meu peito! Quando me lembro destes meus brinquedos de criança já crescida, a sensação de lágrimas aquece-me os olhos e uma saudade aguda e inútil rói-me como um remorso. Tudo aquilo passou, ficou hirto e visível, visualizável no meu passado, na minha perpétua ideia do meu quarto de então, à roda da minha pessoa invisualizável de criança, vista de dentro, que ia da cómoda para o toucador, e do toucador para a cama, conduzindo pelo ar, imaginando-o parte da linha de carris, o eléctrico rudimentar que levava a casa os meus escolares de madeira ridículos.

A uns eu atribuía vícios — fumo, roubo — mas não sou de índole sexual e não lhes atribuía actos, salvo, creio, uma predilecção, que me parecia um acto de brincar, de beijar raparigas e espreitar-lhes as pernas. Fazia-os fumar papei enrolado por trás de uma caixa grande que havia em cima duma mala. Às vezes aparecia no lugar um mestre. E era com toda a emoção deles, e que eu me via obrigado a sentir, que eu arrumava logo o cigarro falso e punha o fumador vendo-o curiosamente desprendido à esquina, esperando o mestre, e cumprimentando-o, não me lembro bem como, à inevitável passagem… Às vezes, estavam longe um do outro e eu não podia com um braço manobrar esse e outro com o outro. Tinha que os fazer andar alternadamente. Doía-me isto como hoje me dói não poder dar expressão a uma vida… Ah, mas por que recordo eu isto? Por que não fiquei eu sempre criança? Por que não morri eu ali, num desses momentos, preso das astúcias dos meus escolares e da vinda como-que-inesperada dos meus mestres? Hoje não posso fazer isto… Hoje tenho só a realidade com que não posso brincar… Pobre criança exilada na sua virilidade! Por que foi que eu tive de crescer?

Hoje, quando relembro isto, vêm-me saudades de mais coisas do que isto tudo. Morreu em mim mais do que o meu passado.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.

Como a folha em móveis águas

Como a folha em móveis águas,
De onda em onda, em confusão,
Rola de mágoas em mágoas
Meu inerte coração.

Mas nem as águas o arrastam
Por vontade de arrastar;
Por um destino se afastam
Alheio ao seu afastar.

Assim as mágoas que apertam
Meu coração, é sem qu’rer

25 – 12 – 1924

Fernando Pessoa In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

No jardim suburbano da minha infância afastada

No jardim suburbano da minha infância afastada
Não há hoje nada.
Quem lá vive, vive num outro □, sem mim.
A vida é assim.

É sempre viver agora no jardim que já foi
E de longe me dói.
Com os olhos rasos de lágrimas relembro-o, afastado,
Ou é no passado?

Que choro? É a vida, ou é ao jardim que findou
Porque o que é já não sou?
E a minha alma é hoje outra, o meu coração
Perdeu o irmão,

A criança que eu era, a minha antiga companhia,
A □, a alegria
E é deserto o jardim ao brincar antes agora!
Folha seca esta hora!

8 – 10 – 1919

Fernando Pessoa In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Minha mãe

Minha mãe, dá-me outra vez
O meu sonho,
Ele era tão belo, mãe,
Que choro porque o tive…

Não era de gente,
Não era de casa,
Não era de andar num lugar,
Não sei de que era ou como era
Mas era tão belo como se eu soubesse agora isso tudo.

Não está à tua direita,
Não está à tua esquerda
E não está no teu colo,
Mas

Era uma cousa brilhante
Mas não tinha brilho…
Era uma cousa para criança,
Mas era verdade,
Era um brinquedo
E não acabava,
Era um lugar para ir
Mas a gente não voltava à noite…
Dá-me o meu sonho, mãe,
Assim mesmo como eu não sei o que ele é.

Quero voltar para trás, mãe,
E ir buscá-lo ao meio do caminho.
Não sei onde ele está
Mas é ali que está
E brilha onde eu o não vejo…
O meu sonho, mãe,
É o meu irmão mais novo.

Eu ando triste, mãe…
Triste como uma ave na gaiola,
Na gaiola desde inocente…
Dá-me o meu sonho, mãe,
E deixa-me só sonhar…

Não são todos os teus beijos
Nem todos os teus brinquedos,
Nem o teu colo onde durmo,
Que se parecem com ele
Quando o tenho, tenho-te a ti,
Ainda que lá não estejas, não me faltas lá,
Quando o tenho.

 

1916

Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005