Ferreira Gullar

Menos a mim

Conheço a aurora com seu desatino
Conheço o amanhecer com o seu tesouro
Conheço as andorinhas sem destino
Conheço rios sem desaguadouros
Conheço o medo do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Conheço o ódio e seus argumentos
Conheço o mar e suas ventanias
Conheço a esperança e seus tormentos
Conheço o inferno e suas alegrias
Conheço a perda do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Mas depois que chegaste de algum céu
Com teu corpo de sonho e margarida
Pra afinal revelar-me quem sou eu
Posso afirmar enfim
Que não conheço nada desta vida
Que não conheço nada, nada, nada
Nem mesmo a mim.

Ferreira Gullar

Falar

A poesia é, de fato, o fruto 
de um silêncio que sou eu, sois vós, 
por isso tenho que baixar a voz 
porque, se falo alto, não me escuto. 

A poesia é, na verdade, uma 
fala ao revés da fala, 
como um silêncio que o poeta exuma 
do pó, a voz que jaz embaixo 
do falar e no falar se cala. 
Por isso o poeta tem que falar baixo 
baixo quase sem fala em suma 
mesmo que não se ouça coisa alguma. 

Ferreira Gullar, In Em alguma parte alguma, 2010

Estranheza do mundo

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro;
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto “para quê”?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.
 
Ferreira Gullar

Coito

Todos os movimentos
           do amor
           são noturnos
mesmo quando praticados
           à luz do dia

Vem de ti o sinal
           no cheiro ou no tato
que faz acordar o bicho
           em seu fosso:
           na treva, lento,
           se desenrola
                     e desliza
em direção a teu sorriso

Hipnotiza-te
com seu guizo
                     envolve-te
em seus anéis
corredios
                     beija-te
                     a boca em flor
e por baixo
           com seu esporão
           te fende te fode

           e se fundem
           no gozo

depois
desenfia-se de ti

           a teu lado
           na cama
           recupero a minha forma usual

Ferreira Gullar

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora, 
moça branca como a neve, 
me leve. 

Se acaso você não possa 
me carregar pela mão, 
menina branca de neve, 
me leve no coração. 

Se no coração não possa 
por acaso me levar, 
moça de sonho e de neve, 
me leve no seu lembrar. 

E se aí também não possa 
por tanta coisa que leve 
já viva em seu pensamento, 
menina branca de neve, 
me leve no esquecimento. 

Ferreira Gullar, In Dentro da noite veloz, 1975

Canção de preferência

Não quero teus seios túmidos
de desejos maternais.
Se teus seios são redondos,
há muitos outros iguais.

Não quero teus lábios úmidos
(beijos, carícias, corais).
Se teus lábios são vermelhos,
existem lábios iguais.

Não desejo teus cabelos
– lembranças de vendavais –
Se teus cabelos são belos,
sei de cabelos iguais.

Não, não desejo teu corpo
de contornos sugestivos,
de braços, de tudo o mais…

Só quero teus olhos – teus
olhos sem adjetivos

– teus olhos originais!

Ferreira Gullar

O que se foi


O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

Ferreira Gullar