Geir Campos

Questões de tempo

Quem perguntará por mim 
quando a última passar 
com seu facão? 
Que mulher grave desfalecerá 
vendo apagados meus olhos 
na multidão? 
Que homem de bem guardará 
o adeus meu 
seco na palma da mão? 
Quem lembrará minha voz 
coral ausente 
em qualquer canção? 
Quem se pagará a herança 
inteira ou em pedaços 
do meu indivisível coração? 
E a quem a flor 
de raiz em mim 
fará os acenos do não? 

Geir Campos, In Antologia Poética, 2003

9ª Cantiga de acordar mulher

Se te chamarem flor 
toma cuidado: 
vê se não é gente que te quer por 
numa redoma – lindo objeto – a vegetar 
alheia a tempo e lugar! 
Se te chamarem flor, 
acorda e toma cuidado: 
olha que te levam para o mesmo lado 
de tanto destino mal-aventurado! 

Geir Campos, In Cantiga de acordar mulher, 1964

Alba

Não faz mal que amanheça devagar, 
as flores não têm pressa nem os frutos: 
sabem que a vagareza dos minutos 
adoça mais o outono por chegar. 
Portanto não faz mal que devagar 
o dia vença a noite em seus redutos 
do leste — o que nos cabe é ter enxutos 
os olhos e a intenção de madrugar. 

Geir Campos, In Cantiga de acordar mulher, 1964

Inventário

Esta epiderme há muitos muitos anos 
me cobre: guarda algumas cicatrizes, 
outras não lembra mais, e até mistura 
uns caminhos da infância a outros de agora. 

As unhas não direi que são as mesmas 
com que o seio nutriz terei vincado: 
são mais duras, mais feias e mais sujas 
— pois nem sempre de amor e entrega foi 
o chão em que plantei, colhi nem sempre. 

Se os dentes não gastei, gastei meus olhos 
entrevendo paisagens, vendo coisas, 
cegando-me ante sésamos de sombra. 

A alma apanhou demais e vai pejada, 
mas vão leves as mãos cheias de nada. 

Geir Campos, In Operário do Canto, 1959

4ª Cantiga de acordar mulher

Bom é sorrires, olhar 
em mim: não vês 
o inimigo, o rival 
jamais. 
Na caça, não serás 
a presa; não serás, 
no jogo, a prenda. 
Partilharemos, sem meias 
medidas, 
a espera, o arroubo, o gesto, 
o salto, o pouso e o sono 
e o gosto desse rir 
dentro e fora do tempo 
sempre que nova 
mente 
acordares 
 
Geir Campos, In Cantiga de acordar mulher, 1964

3ª Cantiga de acordar mulher

Das vozes que te embalavam 
a esperança de menina 
moça 
guardaste mais, de tanto repisadas, 
as perfumadas lições 
da nobre arte de agarrar um homem. 
De como te fazeres desejada, 
amada porventura, 
tudo aprendeste: os gestos, os meneios, 
a graça de sorrir e de calar. 
Hoje tens o teu homem 
disposto a desdobrar-se em pão e vinho 
para apagar tua fome. 
por isso, que lhe hás de dar: 
o trigo de tua pele, as uvas de tua boca? 
Se sem a ponte do amor, tua lavoura é tão pouca… 
Acorda: onde estão as vozes que te ensinaram a amar? 
 
Geir Campos, In Cantiga de acordar mulher, 1964

1ª Cantiga de acordar mulher

Vagueio além de seu sono 
com alma de marinheiro 
feliz de chegar a um ponto 
sem previsão de roteiro, 
mais tonto de o descobrir 
que de lhe ser estrangeiro. 
Teu continente a dormir 
— pouso de barco ligeiro — 
pára os relógios num tempo 
avesso a qualquer ponteiro: 
nem sei se o fico vivendo 
ou se te acordo primeiro. 
 
Geir Campos, In Cantiga de acordar mulher, 1964

o homem novo

 

 

Se perguntares
como,
eu ficarei calado
ou talvez diga
simplesmente
assim.
Se perguntares
quando,
eu talvez diga

ou talvez meu silêncio
mais fundo cale ainda
pelo receio
de estar falando
atrasado.
Se perguntares
qual,
eu direi
esse a teu lado:
sabe de coisas
e a vida,
e se transforma
em pleno aprendizado.
Se me olhares agora
por certo me acharás
maravilhado.

Geir Campos – poeta capixaba