Helena Kolody

A poesia impossível

Inquietação de marinheiro 
Que sente o mar e seu chamado… 
Não poder embarcar! 

Prisioneiro do nada, 
Pássaro mutilado 
Que a distância fascina… 

Helena Kolody, In Vida Breve, 1964

Anúncios

A miragem no caminho

Perdeu-se em nada, 
caminhou sozinho, 
a perseguir um grande sonho louco. 
(E a felicidade 
era aquele pouco 
que desprezou ao longo do caminho). 

Helena Kolody, In Viagem no Espelho, 1988

Tarde Demais

Se soubesse, amor, quanto eu quisera ser 
A doce companheira, indulgente e querida, 
Que enchesse de alegria o vácuo de tua vida 
Com seu alcandorado afeto de mulher… 
Com que solicitude ardente e comovida 
Minha ternura havia de aprender 
A apagar de teu rosto os traços de sofrer, 
A afastar de tu′alma a dor imerecida! 
Eu desejaria ser a meiga feiticeira 
Que transformasse em luz a tua vida inteira, 
Concretizando o teu ideal de sonhador. 
Mas, em teu coração outra mulher impera… 
No encantado jardim do reino da quimera, 
Floriu tarde demais o meu sonho de amor. 

Helena Kolody, In Sempre Poesia, 1994

Fim de Jornada

Caminhar ao encontro da noite. 
Como o camponês regressa ao lar. 
Após um longo dia de verão. 

Sem pressa ou cuidado. 
Na tarde ouro e cinza. 
Sozinho entre os campos lavrados. 
E as colinas distantes. 

Caminhar, ao encontro da noite. 
Sem pressa ou cuidado. 
A noite é somente uma pausa de sombra. 
Entre um dia e outro dia. 

Helena Kolody, In De Vida Breve, 1964

O eterno ausente

A hora de partir foi tão inesperada!
Fechaste mansamente as portas da morada
E partiste.

Numa orgia floral, chegava a primavera,
Enchendo todo o céu de risadas de luz.

Por certo, o seu rumor feriu tua alma triste
Cerraste mansamente as portas da morada
E partiste.

Helena Kolody, In Música Submersa, 1945

 
 

Retrato Antigo

Quem é essa 
que me olha 
de tão longe, 
com olhos que foram meus? 

Helena Kolody, In Poemas do amor impossível, 2002

Pelos bairros esquecidos

Pelos bairros esquecidos,
tantos passos,
tantos risos,
tantos sonhos perdidos!

Helena Kolody, In Ontem, Agora, 1991

Olhos de antes

Em vão percorro a cidade
com meus olhos de antes.
As ruas não são as mesmas…
E são outros os passantes.

Helena Kolody, In Viagem no Espelho, 1988

 

Mergulho

Almejo mergulhar 
na solidão e no silêncio, 
para encontrar-me 
e despojar-me de mim, 
até que a Eterna Presença 
seja a minha plenitude. 
 
Helena Kolody, In Sempre Palavra, 1985

Fio d’água

Não quero ser o grande rio caudaloso 
Que figura nos mapas. 

Quero ser o cristalino fio d’água 
Que canta e murmura na mata silenciosa. 

 
Helena Kolody, In Sinfonia da Vida, 199

Sabedoria

Tudo o tempo leva. 
A própria vida não dura. 
Com sabedoria, 
colhe a alegria de agora 
para a a saudade futura.
 
Helena Kolody, In Sempre Poesia, 1994

O sentido secreto da vida

Há um sentido profundo
Na superficialidade das coisas,
Uma ordem inalterável
No caos aparente dos mundos.

Vibra um trabalho silencioso e incessante
Dentro da imobilidade das plantas:
No crescer das raízes,
No desabrochar das flores,
No sazonar das frutas.

Há um aperfeiçoamento invisível
Dentro do silêncio de nosso Eu:
Nos sentimentos que florescem,
Nas idéias que voam,
Nas mágoas que sangram.

Uma folha morta
Não cai inutilmente.
A lágrima não rola em vão.
Uma invisível mão misericordiosa
Suaviza a queda da folha,
Enxuga o pranto da face.

Helena Kolody, In Correnteza, 1977

Vigília

A noite é profunda, 
Silente e de trevas. 

Ao lado de teu corpo, imóvel e sereno, 
Estou a contemplar-te, Pai. 

Por estranhos caminhos, 
Cheios de neblina, 
Anda minh’alma soluçante, 
A clamar por ti. 

Teus olhos fitam muito longe 
Um olhar imensamente triste. 

A chama dos círios dança sem cessar 
Em tuas pupilas mortas, 
Tentando desviar tua mirada 
De um ponto fixo na eternidade. 

Círio recôndito, 
Arde meu coração e se consome. 

Há longos espinhos aguçados 
Esgarçando meus nervos sensíveis. 

Beijo tuas mãos pálidas e tristes, 
Humildes mãos cansadas, 
Agora consteladas 
Por líquidos brilhantes. 

Por estranhos caminhos, 
Cheios de neblina, 
Anda minh’alma soluçante, 
A clamar por ti. 

 
Helena Kolody, In Paisagem Interior, 1941