José Saramago

Ainda agora é manhã

Ainda agora é manhã, e já os ventos
Adormecem no céu. Pouco a pouco,
A névoa antiga e baça se levanta.
Ruivamente, o sol abre uma estrada
Na prata nublada destas águas.
É manhã, meu amor, a noite foge,
E no mel dos teus olhos escurece
O amargo das sombras e das mágoas.

José Saramago, In Provavelmente Alegria, 1987

Poente

Que podes mais dizer-me que não saiba,
Veia do sol sangrada para a terra,
Manso esgarçar de névoa refrangida
Entre o azul do mar e o céu vermelho?
Já há tantos poentes na lembrança,
Tantos dedos de fogo sobre as águas,
Que todos se confundem quando, noite,
Posto o sol, se fecham os teus olhos.

José Saramago, In Os Poemas Possíveis, 1966

Nesta esquina do tempo é que te encontro

Nesta esquina do tempo é que te encontro, 
Ó nocturna ribeira de aguas vivas 
Onde os lírios abertos adormecem 
A mordência das horas corrosivas 

Entre as margens dos braços navegando 
Os olhos nas estrelas do teu peito, 
Dobro a esquina do tempo que ressurge 
Da corrente do corpo em que me deito 

Na secreta matriz que te modela, 
Um peixe de cristal solta delírios 
E como um outro sol paira, brilhando, 
Sobre as águas, as margens e os lírios 

José Saramago, In “Os Poemas Possíveis”

Poema a boca fechada

Não direi: 
Que o silêncio me sufoca e amordaça. 
Calado estou, calado ficarei, 
Pois que a língua que falo é doutra raça. 

Palavras consumidas se acumulam, 
Se represam, cisterna de águas mortas, 
Ácidas mágoas em limos transformadas, 
Vasa de fundo em que há raízes tortas. 

Não direi: 
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, 
Palavras que não digam quanto sei 
Neste retiro em que me não conhecem. 

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, 
Nem só animais boiam, mortos, medos, 
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam 
No negro poço de onde sobem dedos. 

Só direi, 
Crispadamente recolhido e mudo, 
Que quem se cala quanto me calei 
Não poderá morrer sem dizer tudo. 

José Saramago, In “Os Poemas Possíveis”

Catorze de Junho

Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.

José Saramago, In Poesía Completa, Alfaguara

No silêncio dos olhos

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago, In “Os Poemas Possíveis”

É tão fundo o silêncio

É tão fundo o silêncio entre as estrelas. 
Nem o som da palavra se propaga, 
Nem o canto das aves milagrosas. 
Mas lá, entre as estrelas, onde somos 
Um astro recriado, é que se ouve 
O íntimo rumor que abre as rosas. 

José Saramago, In Provavelmente Alegria, 1987

Diz tu por mim, silêncio

Não era hoje um dia de palavras, 
Intenções de poemas ou discursos, 
Nem qualquer dos caminhos era nosso. 
A definir-nos bastava um acto só, 
E já que nas palavras me não salvo, 
Diz tu por mim, silêncio, o que não posso. 

 José Saramago, In Os Poemas Possíveis, 1966

Eloquência

Um verso que não diga por palavras,
Ou se palavras tem, que nada exprimam:
Uma linha no ar, um gesto breve
Que, num silêncio fundo, me resuma
A vontade que quer, a mão que escreve.

 José Saramago, In Os Poemas Possíveis, 1966

Aprendamos, Amor

Aprendamos, amor, com estes montes 
Que, tão longe do mar, sabem o jeito 
De banhar no azul dos horizontes. 

Façamos o que é certo e de direito: 
Dos desejos ocultos outras fontes 
E desçamos ao mar do nosso leito. 

José Saramago, in “Os Poemas Possíveis”

Receita

Tome-se um poeta não cansado, 
Uma nuvem de sonho e uma flor, 
Três gotas de tristeza, um tom dourado, 
Uma veia sangrando de pavor. 
Quando a massa já ferve e se retorce 
Deita-se a luz dum corpo de mulher, 
Duma pitada de morte se reforce, 
Que um amor de poeta assim requer.
 
José Saramago, In “Os Poemas Possíveis”

Metáfora

Trago nas mãos um búzio ressoante 
Onde os ventos do mar se reuniram, 
E das mãos, ou do búzio murmurante, 
Alastra em cor e som irradiante 
A beleza que os olhos te despiram
 
José Saramago, In “Os Poemas Possíveis”

Oceanografia

Volto as costas ao mar que já entendo,
À minha humanidade me regresso,
E quanto há no mar eu surpreendo
Na pequenez que sou e reconheço.

De naufrágios sei mais que sabe o mar,
Dos abismos que sondo, volto exangue,
E para que de mim nada o separe,
Anda um corpo afogado no meu sangue.

José Saramago, In Os Poemas Possíveis, 1966

Eu luminoso não sou

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se no fundo do poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d’água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.

 José Saramago

Disseram que havia sol

Disseram que havia sol
Que todo o céu descobria
Que nas ramagens pousavam
Os cantos das aves loucas

Disseram que havia risos
Que as rosas se desdobravam
Que no silêncio dos campos
Se davam corpos e bocas

Mais disseram que era tarde
Que a tarde já descaía
Que ao amor não lhe bastavam
Estas nossas vidas poucas

E disseram que ao acento
De tão geral harmonia
Faltava a simples canção
Das nossas gargantas roucas

Ó meu amor estas vozes
São os avisos do tempo

José Saramago,  in Provavelmente Alegria, 1987

Em violino fado

 

Ponho as mãos no teu corpo musical 
Onde esperam os sons adormecidos. 
Em silêncio começo, que pressente 
A brusca irrupção do tom real. 
E quando a alma ascendendo canta 
Ao percorrer a escala dos sentidos, 
Não mente a alma nem o corpo mente. 
Não é por culpa nossa se a garganta 
Enrouquece e se cala de repente 
Em cruas dissonâncias, em rangidos 
Exasperantes de acorde errado.

Se no silêncio em que a canção esmorece 
Outro tom se insinua, recordado, 
Não tarda que se extinga, emudece: 
Não se consente em violino fado.

 José Saramago “in os poemas possíveis, 1966”

 

No Coração, Talvez

 

No coração, talvez, ou diga antes: 
Uma ferida rasgada de navalha, 
Por onde vai a vida, tão mal gasta. 
Na total consciência nos retalha. 
O desejar, o querer, o não bastar, 
Enganada procura da razão 
Que o acaso de sermos justifique, 
Eis o que dói, talvez no coração. 

José Saramago, in “Os Poemas Possíveis”

E se vier que traga o coração

E se vier que traga o coração
No seu lugar de paz. Amor diremos,
Que outro nome melhor se não descobre.
Só a vida não diz quanto sabemos.

José Saramago “In Provavelmente Alegria”