Lêdo Ivo

Recomeço

Como o cavalo que relincha impaciente
e bate os cacos diante da estalagem
e com o rabo fustiga as moscas que o importunam
assim a morte está sempre à nossa espera.
Após a primeira morte outras virão
e continuamos a morrer, habitando o espaço
onde se movem os pássaros e as abelhas
e o peixe imprudente que salta entre as pedras.
Tudo em nós é recomeço, origem devolvida.
Além da noite escura encontramos o dia,
reinício da vida leve como palha
que estremece perene entre as estrelas.

Lêdo Ivo, In Crepúsculo Civil, 1990

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A mudança

Mudo todas as horas.
E o tempo, sem demora,
muda mais do que fia.

Mudo mas permaneço
bem longe das mudanças.
Como uma flor, floresço.
Sou pétala e esperança.

Mudo e sou sempre o mesmo,
igual a um tiro a esmo.
Como um rio que corre.

Sem sair de onde estou,
de tanto mudar sou
o que vive e o que morre.

Lêdo Ivo In Plenilúnio, 2004

Soneto de Abril

Agora que é abril, e o mar se ausenta,
secando-se em si mesmo como um pranto,
vejo que o amor que te dedico aumenta
seguindo a trilha de meu próprio espanto.

Em mim, o teu espírito apresenta
todas as sugestões de um doce encanto
que em minha fonte não se dessedenta
por não ser fonte d′água, mas de canto.

Agora que é abril, e vão morrer
as formosas canções dos outros meses,
assim te quero, mesmo que te escondas:

amar-te uma só vez todas as vezes
em que sou carne e gesto, e fenecer
como uma voz chamada pelas ondas.

 Lêdo Ivo, In Acontecimento do Soneto, 1948

Soneto de Amor

Doce fogo do amor, como me queimas
e me fazes arder por entre neves
como se eu fora a pálida fogueira
acesa pelo sol na noite breve.

Doce rival do fogo verdadeiro,
quanto mais rompo contra as tuas chamas,
elas se alastram mais na minha cama
e, guerreiro, por ti sou guerreado.

Mais me queima teu frio, mais intacto
respiro e te combato; e fatigado
da luta em que me abrasas, mais descanso.

Oculto nos lençóis, fogo de estio,
escorres, ledo e manso como as águas
— a água serena do amoroso rio.

Lêdo Ivo, In Crepúsculo Civil, 1990

Soneto ao Tempo

Por ser tempo, é que o tempo não me basta 
e se escoa, cantante, pelas margens 
da vida feita de água que o arrasta 
para o mal-entendido das viagens. 

E leva tudo em seu roldão, deixando 
perdido o tempo achado, como a fonte 
se perde no existir, e vai cantando 
entre as pedras e os bosques do horizonte. 

Quadrante do real, ó velho espelho 
dos dias, debruçado em ti, me vejo 
igual e diferente, moço e velho, 

sonho a que me assemelho no desejo. 
E o tempo, eternidade decaída, 
é meu contemporâneo, sendo a vida. 

Lêdo Ivo, In Poesia Completa, 2004

Soneto da mulher e a nuvem

A João Cabral de Melo Neto

Nuvem no céu do nunca, nem tão branca
— assim era o amor, à minha espreita,
e era a mulher, de nuvens sempre feita
e de véus e pudor que o amor arranca.

Não pude amá-la, pois não era franca
a sua carne que o amor aceita,
nuvem que um céu de amor sempre atravanca
e entre praias e pântanos se deita.

Bruma de carne, em vão céu de tormento,
parindo fogo aos meus dezesseis anos,
assim foi ela, sem deixar seu nome.

Nunca foi minha, e só em pensamento
eu pude dar-lhe o amor de desenganos
que me deixou no corpo espanto e fome.

Lêdo Ivo, In As imaginações, 1944

Soneto de Outono

Se mais que a forma e mais que o pensamento 
guardado na vigília, sem temor. 
Fica no meu olhar, como no amor 
verteria teu nome em verso atento. 

Sê mais que a forma sempre em movimento 
tornada mais humana pela dor. 
Fica dormindo em mim, quando eu me for 
e te deixar entregue ao desalento. 

Sê minha mesmo que eu não te conheça 
e te ame sem te ver, sempre te vendo 
na forma que jamais fuja ou pereça. 

Para tocar-te, eu sempre as mãos estendo 
mas não te alcanço, e em minhas mãos transformas 
teu corpo imaginário em puras formas. 

Lêdo Ivo, In Poesia Completa, 2004

Soneto da porta

Quem bate à minha porta não me busca. 
Procura sempre aquele que não sou 
e, vulto imóvel atrás de qualquer muro, 
é meu sósia ou meu clone, em mim oculto. 

Que saiba quem me busca e não me encontra: 
sou aquele que está além de mim, 
sombra que bebe o sol, angra e laguna 
unidas na quimera do horizonte. 

Sempre andei me buscando e não me achei. 
E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda 
da luz perdida de uma estrela morta, 

sinto saudades do que nunca fui, 
do que deixei de ser, do que sonhei 
e se escondeu de mim atrás da porta. 

Lêdo Ivo, In Plenilúnio, 2004

Passeio no jardim

Quem aspira o perfume 
deste longo jardim 
de palavras cortadas 
como se fossem caules 
vê no chão espalhadas 
as pétalas da rosa: 
estilhaços de mim. 

Nunca me completei 
e sonho o que seria 
se a mim me reunisse 
a mim mesmo somado 
como um ramo de flores 
ou a gota de orvalho 
na manhã condenada. 

Sempre me procurei 
dentro de mim perdido 
em meus próprios domínios. 
E no nunca me achar 
é que me encontro e sou. 
Só parto ao regressar. 
Só venho quando vou. 

Lêdo Ivo, In Crepúsculo Civil, 1990

O dia inacabado

Como todos os homens, sou inacabado. 
Jamais termino de ser. 
Após a noite breve um longo amanhecer 
me detém no umbral do dia. 
Perco o que ganho no sonho e no desejo 
quando a mim mesmo me acrescento. 
Toda vez que me somo, subtraio-me, 
uma porção levada pelo vento. 
Incompleto no dia inacabado, 
livre de ser ainda como e quando, 
sigo a marcha das plantas e das estrelas. 
E o que me falta e sobra é o meu contentamento. 

Lêdo Ivo, In Calima, 2011 

A infância redimida

A alegria, crio-a agora neste poema. 

Embora seja trágica e íntima da morte 
a vida é um reino – a vida é o nosso reino 
não obstante o terror, o extase e o milagre. 

Como te sonhei, Poesia! não como te sonharam… 

Escondo-me no bosque da linguagem, corro em salas de espelhos. 

Estou sempre ao alcance de tudo, cheio de orgulho 
porque o Anjo me segue a qualquer parte. 

Tenho um ritmo longo demais para louvar-te, Poesia. 
Maior, porém, era a beira da praia de minha cidade 
onde, menino, inventei navios antes de tê-los visto. 

Maior ainda era o mar 
diante do qual todas as tardes eu recitava poemas, 
festejando-o com os olhos rasos d′água e às vezes sorrindo de paixão, 
porque grande coisa é descobrir-se o mar, vê-lo existir no mundo. 
Ó mar de minha infância, maior que o mar de Homero. 

Brinco de esconder-me de Deus, compactuo com as fadas 
e com este ar de jogral mantenho querelas com a morte. 
Depois do outro lado, há sempre um novo outro lado a conquistar-se… 
Por isso te amo, Poesia, a ti que vens chamar-me para as califórnias da vida. 
Não és senão um sonho de infância, um mar visto em palavras. 

Lêdo Ivo, In O Sinal Semafórico, 1974

Respiração

Não minto nem digo a verdade 
Sou como o vento que sopra 
e a chuva que cai. 
Sou a luz que ao anoitecer 
devolve claridade. 

Sou como as escadarias 
que aparecem nos sonhos: 
um clarão entre degraus, 
uma sombra entre dois passos, 
uma nuvem esbraseada. 

Sou como a erva que cresce 
e o frio que une os corpos. 
Não falo nem silencio. 
Desperto para sonhar. 
Não respondo nem interrogo. 

Apenas respiro 
junto ao dia que nasce. 

Lêdo Ivo, In Crepúsculo Civil, 1990

 

 

Canção de Verão

Preciso da eternidade 
como preciso do vento 
que sopra sobre a cidade. 
Entre o que fica e o que passa 
vejo no verão sinistro 
um ninho cair da árvore. 
A morte ainda é lembrança: 
nome inscrito numa lápide. 
A morte ainda é esperança 

promessa de eternidade 
ventania! ventania 
soprando sobre a cidade. 

Lêdo Ivo, In Poesia Completa, 2004

A Dádiva de Junho

No meio-dia, veio 
a saudade do paraíso 
em carne, velo e pedra 
que uma mulher me deu. 

Antes de se libertar 
das nuvens, dos pássaros 
foi corpo de moça nua 
que uma mulher me deu. 

Meu rosto ficou em êxtase 
e ocasionalmente tranqüilo. 
Imobilizou-o o riso 
que uma mulher me deu. 

Perdi minha arte poética 
na varanda deste mês. 
Orientou-me o olhar 
que uma mulher me deu. 

Sob céus azuis e brancos 
a musica me espatifou. 
Morreria sem o socorro 
que uma mulher me deu. 

Degradado me senti 
e o desamor me cobriu. 
Faltava o mudo colóquio 
que uma mulher me deu. 

Verti, na lua fantástica, 
a água do meu desespero. 
Só me curaria o amor 
que uma mulher me deu. 

Fugi na manha serena 
— minha pena! 
— trovador sensacional. 
Queria apenas as lágrimas 
que uma mulher me deu. 

Dancei sambas na Pavuna 
encostei-me aos oitizeiros 
certo da imortalidade 
que uma mulher me deu. 

Lutei contra a morte 
e me despaisei 
levando comigo as coisas 
que uma mulher me deu. 

Fui suficientemente cruel 
e desprezei em silencio. 
Faltava-me o amor ao próximo 
que uma mulher me deu. 

Rasguei todos os sonetos 
anteriores ao encontro 
pois nao tinham o rigor clássico 
que uma mulher me deu. 

Gravei seu nome tão claro 
em todas às arvores do Brasil. 
inflamava-me o civismo 
que uma mulher me deu. 

Depois sai caminhando 
em direção às estrelas. 
E na terra ficava o céu 
que uma mulher me deu. 

Lêdo Ivo, In Poesia Completa, 2004

Amor

 
Pouso a minha mão 
na tua espádua: 
e a noite se muda 
em alvorada. 

No mar passam navios 
vagabundos: 
haverei der levar-te 
ao fim do mundo. 

Um pássaro canta 
seu canto de pássaro. 
É dia ou noite? 

Jamais saberemos. 
Luz e sombra unidas 
na eterna aliança. 

 
Lêdo Ivo, Curral de Peixe, 1995

Conselho

Esconde a tua vida.
Guarda o teu segredo.
Tudo, neste mundo,
é engano cego e ledo.

De manhã é noite.
Mesmo à tarde é cedo.
A vida é meandro
sem qualquer enredo.

A ninguém confesses
teu amor ou medo,
teu sonho acordado.

Sê um caracol
fechado em si mesmo
na manhã de sol.

Lêdo Ivo, In Crepúsculo Civil, 1990 

Oceano Secreto

Quando te amo
obedeço às estrelas.
Um número preside
nosso encontro na treva.

Vamos e voltamos
como os dias e as noites
as estações e as marés
a água e a terra.

Amor, respiração
do nosso oceano secreto.

Lêdo Ivo, In Crepúsculo Civil, 1990 

As necessidades

Uma porta fechada não é suficiente para que o homem
esconda o seu amor. Ele também necessita de uma porta aberta
para poder partir e se perder na multidão quando esse amor explodir
como o barril de pólvora no arsenal alcançado pelo raio.
Um telhado não basta para que o homem se proteja
do calor e da tempestade. Para fugir ao relâmpago
ele precisa de um corpo estendido na cama
e ao alcance de sua mão ainda temerosa
de avançar no escuro quando a chuva cai no silêncio do mundo aberto como uma fruta
entre dois estrondos.
Na noite que declina, no dia que nasce,
o homem precisa de tudo: do amor e do raio.

Lêdo Ivo,  in Curral de Peixe, 1995