Luís Vaz de Camões

Alma Minha Gentil, que te Partiste

Alma minha gentil, que te partiste 
Tão cedo desta vida descontente, 
Repousa lá no Céu eternamente, 
E viva eu cá na terra sempre triste. 

Se lá no assento Etéreo, onde subiste, 
Memória desta vida se consente, 
Não te esqueças daquele amor ardente, 
Que já nos olhos meus tão puro viste. 

E se vires que pode merecer-te 
Algũa cousa a dor que me ficou 
Da mágoa, sem remédio, de perder-te, 

Roga a Deus, que teus anos encurtou, 
Que tão cedo de cá me leve a ver-te, 
Quão cedo de meus olhos te levou. 

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”

Quando não te Vejo Perco o Siso

Formosura do Céu a nós descida, 
Que nenhum coração deixas isento, 
Satisfazendo a todo pensamento, 
Sem que sejas de algum bem entendida; 

Qual língua pode haver tão atrevida, 
Que tenha de louvar-te atrevimento, 
Pois a parte melhor do entendimento, 
No menos que em ti há se vê perdida? 

Se em teu valor contemplo a menor parte, 
Vendo que abre na terra um paraíso, 
Logo o engenho me falta, o espírito míngua. 

Mas o que mais me impede inda louvar-te, 
É que quando te vejo perco a língua, 
E quando não te vejo perco o siso. 

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”

Sem Causa, Juntamente Choro e Rio

Tanto de meu estado me acho incerto, 
Que em vivo ardor tremendo estou de frio; 
Sem causa, juntamente choro e rio, 
O mundo todo abarco, e nada aperto. 

É tudo quanto sinto um desconcerto: 
Da alma um fogo me sai, da vista um rio; 
Agora espero, agora desconfio; 
Agora desvario, agora acerto. 

Estando em terra, chego ao céu voando; 
Num’ hora acho mil anos, e é de jeito 
Que em mil anos não posso achar um’ hora. 

Se me pergunta alguém porque assim ando, 
Respondo que não sei; porém suspeito 
Que só porque vos vi, minha Senhora. 

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”

Cara Minha Inimiga

Cara minha inimiga, em cuja mão 
Pôs meus contentamentos a ventura, 
Faltou-te a ti na terra sepultura, 
Por que me falte a mim consolação. 

Eternamente as águas lograrão 
A tua peregrina formosura: 
Mas enquanto me a mim a vida dura, 
Sempre viva em minha alma te acharão. 

E, se meus rudos versos podem tanto, 
Que possam prometer-te longa história 
Daquele amor tão puro e verdadeiro, 

Celebrada serás sempre em meu canto: 
Porque, enquanto no mundo houver memória, 
Será a minha escritura o teu letreiro. 

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”

Amor é um Fogo que Arde sem se Ver

 

Amor é um fogo que arde sem se ver; 
É ferida que dói, e não se sente; 
É um contentamento descontente; 
É dor que desatina sem doer. 

É um não querer mais que bem querer; 
É um andar solitário entre a gente; 
É nunca contentar-se e contente; 
É um cuidar que ganha em se perder; 

É querer estar preso por vontade; 
É servir a quem vence, o vencedor; 
É ter com quem nos mata, lealdade. 

Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade, 
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”

Para que quero a Glória Fugitiva?

 

Já é tempo, já, que minha confiança 
Se desça duma falsa opinião; 
Mas Amor não se rege por razão, 
Não posso perder, logo, a esperança. 

A vida sim, que uma áspera mudança 
Não deixa viver tanto um coração. 
E eu só na morte tenho a salvação? 
Sim, mas quem a deseja não a alcança. 

Forçado é logo que eu espere e viva. 
Ah dura lei de Amor, que não consente 
Quietação num’alma que é cativa! 

Se hei-de viver, enfim, forçadamente, 
Para que quero a glória fugitiva 
Duma esperança vã que me atormente? 

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”

Não Pode Tirar-me as Esperanças

 

 

Busque Amor novas artes, novo engenho 
Para matar-me, e novas esquivanças; 
Que não pode tirar-me as esperanças, 
Que mal me tirará o que eu não tenho. 

Olhai de que esperanças me mantenho! 
Vede que perigosas seguranças! 
Pois não temo contrastes nem mudanças, 
Andando em bravo mar, perdido o lenho. 

Mas conquanto não pode haver desgosto 
Onde esperança falta, lá me esconde 
Amor um mal, que mata e não se vê. 

Que dias há que na alma me tem posto 
Um não sei quê, que nasce não sei onde; 
Vem não sei como; e dói não sei porquê. 

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”