Manuel Bandeira

Um Sorriso

Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto. 
A sombra já enoitava as moitas. A umidade 
Aveludava o musgo. E tanta suavidade 
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto. 

A viração do oceano acariciava o rosto 
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade, 
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade. 
— Foi então que senti sorrir o meu desgosto… 

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos… 
Depois o céu… e mar e céus azuis: dir-se-ia 
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos… 

A paisagem ficou espiritualizada. 
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia 
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada… 

Manuel Bandeira, In A cinza das horas, 1917

Contigo, comigo

Como contigo
Eu chego a mim!

Como me trazes
A esfera imensa
Do mundo meu
E toda a encerras
Dentro de mim!

Como contigo
Eu chego a mim!
Ah como pões
Dentro de mim
A flor, a estrela,
O vento, o sol,
A água, o sonho!…

Como contigo
Eu chego a mim!

Manuel Bandeira

Velha Chácara

A casa era por aqui… 
Onde? Procuro-a e não acho. 
Ouço uma voz que esqueci: 
É a voz deste mesmo riacho. 

Ah quanto tempo passou! 
(Foram mais de cinqüenta anos) 
Tantos que a morte levou! 
(E a vida… nos desenganos…) 

A usura fez tábua rasa 
Da velha chácara triste: 
Não existe mais a casa… 

— Mas o menino ainda existe. 

Manuel Bandeira, In Lira dos cinquent’anos, 1940

O impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo 
Quero apenas contar-te a minha ternura 
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás 
Eu te pudesse repor 
— Eu soubesse repor — 
No coração despedaçado 
As mais puras alegrias de tua infância! 

Manuel Bandeira, In Libertinagem, 1930

O rio

Ser como o rio que deflui 
Silencioso dentro da noite. 
Não temer as trevas da noite. 
Se há estrelas nos céus, refleti-las. 
E se os céus se pejam de nuvens, 
Como o rio as nuvens são água, 
Refleti-las também sem mágoa 
Nas profundidades tranqüilas.

Manuel Bandeira, In Belo belo, 1948

Teu nome

Teu nome, voz das sereias, 
Teu nome, o meu pensamento, 
Escrevi-o nas areias, 
Na água, — escrevi-o no vento. 

Manuel Bandeira, In Mafuá do malungo, 1948

Desencanto

Eu faço versos como quem chora 
De desalento… de desencanto… 
Fecha o meu livro, se por agora 
Não tens motivo nenhum de pranto. 

Meu verso é sangue. Volúpia ardente… 
Tristeza esparsa… remorso vão… 
Dói-me nas veias. Amargo e quente, 
Cai, gota a gota, do coração. 

E nestes versos de angústia rouca, 
Assim dos lábios a vida corre, 
Deixando um acre sabor na boca. 
— Eu faço versos como quem morre. 

Manuel Bandeira, In A cinza das horas, 1917

Enquanto morrem as Rosas

Morre a tarde. Erra no ar a divina fragrância. 
Fora, a mortiça luz dos crepúsculos arde. 
Nas árvores, no oceano e no azul da distância 
Morre a tarde… 

Morrem as rosas. Minhas pálpebras se molham 
No pranto das desesperanças dolorosas. 
Sobre a mesa, pétala a pétala, se esfolham, 
Morrem as rosas… 

Morre o teu sonho?… Neste instante o pensamento 
Acabrunha o meu ser como um pesar medonho. 
Ah, por que temo assim? Dize: neste momento 
Morre o teu sonho? 

Manuel Bandeira, In A cinza das horas, 1917

Pousa a mão na minha testa

Não te doas do meu silêncio: 
Estou cansado de todas as palavras. 
Não sabes que te amo? 
Pousa a mão na minha testa: 
Captarás numa palpitação inefável 
O sentido da única palavra essencial 
— Amor. 

Manuel Bandeira, in Lira dos cinquent’anos, 1940

O Exemplo das rosas

Uma mulher queixava-se do silêncio do amante:
— Já não gostas de mim, pois não encontras palavras para me louvar!
Então ele, apontando-lhe a rosa que lhe morria no seio:
— Não será insensato pedir a esta rosa que fale?
Não vês que ela se dá toda no seu perfume?

Manuel Bandeira, in Lira dos cinquent’anos, 1940

Mote e glosas

Vi uma estrela tão alta, 
Vi uma estrela tão fria! 
Estrela, por que me deixas 
Sem a tua companhia? 

Sonho contigo de noite, 
Sonho contigo de dia: 
Foi no que deu esta vida 
Sem a tua companhia. 

Água fria fica quente, 
Água quente fica fria. 
Mas eu fico sempre frio 
Sem a tua companhia. 

Nunca mais vou no meu bote 
Pescar peixe na baía: 
Não quero saber de pesca 
Sem a tua companhia. 

Manuel Bandeira, In Mafuá do malungo, 1948

Outra trova

Sombra da nuvem no monte, 
Sombra do monte no mar. 
Água do mar em teus olhos 
Tão cansados de chorar! 

Manuel Bandeira, In Mafuá do malungo, 1948

Versos escritos n’água

Os poucos versos que aí vão,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.

Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza…

Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.

Manuel Bandeira, In A cinza das horas, 1917

Oceano

Olho a praia. A treva é densa. 
Ulula o mar, que não vejo, 
Naquela voz sem consolo, 
Naquela tristeza imensa 
Que há na voz do meu desejo. 

E nesse tom sem consolo 
Ouço a voz do meu destino: 
Má sina que desconheço, 
Vem vindo desde eu menino, 
Cresce quanto em anos cresço. 

— Voz de oceano que não vejo 
Da praia do meu desejo… 

Manuel Bandeira, In A cinza das horas, 1917

Preparação para a morte

A vida é um milagre. 
Cada flor, 
Com sua forma, sua cor, seu aroma, 
Cada flor é um milagre. 
Cada pássaro, 
Com sua plumagem, seu voo, seu canto, 
Cada pássaro é um milagre. 
O espaço, infinito, 
O espaço é um milagre. 
O tempo, infinito, 
O tempo é um milagre. 
A memória é um milagre. 
A consciência é um milagre. 
Tudo é milagre. 
Tudo, menos a morte. 
— Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres. 
 
Manuel Bandeira, In Estrela da tarde, 1960

O último poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira, In Libertinagem, 1930

Vontade de morrer

Não é que não me fales aos sentidos, 
À inteligência, o instinto, o coração: 
Falas demais até, e com tal suasão, 
Que para não te ouvir selo os ouvidos. 

Não é que sinta gastos e abolidos 
Força e gosto de amar, nem haja a mão, 
Na dos anos penosa sucessão, 
Desaprendido os jogos aprendidos. 

E ainda que tudo em mim murchado houvera, 
Teu olhar saberia, senão quando, 
Tudo alertar em nova primavera. 

Sem ambições de amor ou de poder, 
Nada peço nem quero e — entre nós —, ando 
Com uma grande vontade de morrer. 

Manuel Bandeira, In Estrela da tarde, 1960

Rimancete

À dona de seu encanto,
À bem-amada pudica,
Por quem se desvela tanto,
Por quem tanto se dedica,
Olhos lavados em pranto,
O seu amante suplica:

O que me darás, donzela,
Por preço do meu amor?
— Dou-te os meus olhos (disse ela),
Os meus olhos sem senhor…
— Ai não me fales assim!
Que uma esperança tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço do meu amor?
— Dou-te os meus lábios (disse ela),
Os meus lábios sem senhor…
— Ai não me enganes assim,
Sonho meu! Coisa tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te as minhas mãos (disse ela)
As minhas mãos sem senhor…
— Não me escarneças assim!
Bem sei que prenda tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus peitos (disse ela)
Os meus peitos sem senhor…
— Não me tortures assim!
Mentes! Dádiva tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Minha rosa e minha vida…
Que por perdê-la perdida,
Me desfaleço de dor…
— Não me enlouqueças assim,
Vida minha! Flor tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela?…
— Deixas-me triste e sombria.
Cismo… Não atino o quê…
Dava-te quando podia…
Que queres mais que te dê?

Responde o moço destarte:
— Teu pensamento quero eu!
— Isso não… não posso dar-te…
Que há muito tempo ele é teu…

Manuel Bandeira, In Carnaval, 1919