Mário Quintana

O poema

O poema 
essa estranha máscara 
mais verdadeira do que a própria face… 

Mário Quintana

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Um retrato

Seus olhos grandes, redondos e pretos 
Tempos depois ainda ficavam pregados na gente 
Como botões… 

Mário Quintana,  In A cor do invisível, 1989 

Teus olhos

Zarpam, do sonho, em teus olhos 
Os brigues aventureiros: 
Lindos olhos cismativos, 
Com distâncias e nevoeiros… 

Mário Quintana,  In A cor do invisível, 1989 

Os rios

Há na vida tanta coisa, 
Tanta coisa e um só olhar! 
Toda a tristeza dos rios 
É não poderem parar… 

Mário Quintana,  In A cor do invisível, 1989 

Esses inquietos ventos

Esses inquietos ventos andarilhos
Passam e dizem: “Vamos caminhar,
Nós conhecemos misteriosos trilhos,
Bosques antigos onde é bom sonhar…

E há tantas virgens a sonhar idílios!
E tu não vieste, sob a paz lunar,
Beijar os seus entrefechados cílios
as dolorosas bocas a ofegar…”

Os ventos vêm e batem-me à janela:
“A tua vida, que fizeste dela?”
E chega a morte: “Anda! Vem dormir…

Faz tanto frio… E é tão macia a cama…”
Mas toda a longa noite inda hei de ouvir
A inquieta voz do vento que me chama!

Mário Quintana, In “A cor do invisível, 1989”

Jardim Interior

Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono…
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mário Quintana, In  “A cor do invísivel”

Bola de cristal

A praça, o coreto, o quiosque,
as primeiras leituras, os primeiros
versos
e aquelas paixões sem fim…
Todo um mundo submerso,
com suas vozes, seus passos, seus silêncios
– ai que saudade de mim!
Deixo-te, pobre menino, aí sozinho…
Que bom que nunca me viste
como te estou vendo agora
– e é melhor que seja assim…
Deixo-te
com os teus sonhos de outrora, os teus livros queridos
e aquelas paixões sem fim!
e a praça…o coreto…o quiosque
onde compravas revistas…
Sonha, menino triste…
Sonha…
– só o teu sonho é que existe.
 
Mário Quintana

Conversa fiada

Eu gosto de fazer poemas de um único verso.
Até mesmo de uma única palavra
Como quando escrevo o teu nome no meio da página
E fico pensando mais ou menos em ti
Porque penso, também, em tantas coisas… em ninhos.
Não sei por que vazios em meio de uma estrada
Deserta…
Penso em súbitos cometas anunciadores de um Mundo Novo
E – imagina! –
Penso em meus primeiros exercícios de álgebra,
Eu que tanto, tanto os odiava…
Eu que naquele tempo vivia dopando-me em cores, flores,
amores,
Nos olhos-flores das menininhas – isso mesmo! O mundo
Era um livro de figuras
Oh! os meus paladinos, as minhas princesas prisioneiras
em suas altas torres,
Os meus dragões
Horrendos
Mas tão coloridos…
E – já então – o trovoar dos versos de Camões:
“Que o menor mal de todos seja a morte!”
Ah, prometo àqueles meus professores desiludidos que na
próxima vida eu vou ser um grande matemático
Porque a matemática é o único pensamento sem dor…
Prometo, prometo, sim… Estou mentindo? Estou!
Tão bom morrer de amor! E continuar vivendo…
 
Mário Quintana

Canção do amor imprevisto

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E minha poesia é um vicio triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada,
Com teu passo leve,
Com esses teus cabelos…
E o homem taciturno ficou imóvel,
sem compreender nada,
numa alegria atônita…
A súbita alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!
 
Mário Quintana