Miguel Torga

Vento que passas

Vento que passas, leva-me contigo.
Sou poeira também, folha de outono.
Rês tresmalhada que não quer abrigo
No calor do redil de nenhum dono.

Leva-me, e livre deixa-me cair
No deserto de todas as lembranças,
Onde eu possa dormir
Como no limbo dormem as crianças.

Miguel Torga, Diário, vol. V, 1951

Aventurança

Ver o mundo de baixo, como um céu
Onde se há-de subir;
Onde a vida nasceu
E onde tem, afinal, de se cumprir.

Erguer os olhos à divina altura
De uma leira de terra semeada;
À imensidão da lura
Onde cresce a ninhada.

Ver astros, tempestades, mitos,
Onde há luas, quimeras, ambições, desejos;
Onde há gritos
E beijos.

Miguel Torga

Canção do semeador

Na terra negra da vida,
Pousio do desespero,
É que o Poeta semeia
Poemas de confiança.
O Poeta é uma criança
Que devaneia.

Mas todo o semeador
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o chão é duro
E lhe recebe a semente.

Miguel Torga

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

Princípio

Não tenho deuses. Vivo 
Desamparado. 
Sonhei deuses outrora, 
Mas acordei. 
Agora 
Os acúleos são versos, 
E tacteiam apenas 
A ilusão de um suporte. 
Mas a inércia da morte, 
O descanso da vide na ramada 
A contar primaveras uma a uma, 
Também me não diz nada. 
A paz possível é não ter nenhuma. 

Miguel Torga, in ‘Penas do Purgatório’

Só eu Sinto Bater-lhe o Coração

 

Dorme a vida a meu lado, mas eu velo. 
(Alguém há-de guardar este tesoiro!) 
E, como dorme, afago-lhe o cabelo, 
Que mesmo adormecido é fino e loiro. 

Só eu sinto bater-lhe o coração, 
Vejo que sonha, que sorri, que vive; 
Só eu tenho por ela esta paixão 
Como nunca hei-de ter e nunca tive. 

E logo talvez já nem reconheça 
Quem zelou esta flor do seu cansaço… 
Mas que o dia amanheça 
E cubra de poesia o seu regaço! 

Miguel Torga, “in diário”

Recomeça…

 
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga

Vendaval

 

 

Meu coração quebrou.
Era um cedro perfeito;
Mas o vento da vida levantou,
E aquele prumo do céu caiu direito.

Nos bons tempos felizes
Em que ele batia, erguido,
Desde a rama às raízes
Era seiva e sentido.

Agora jaz no chão.
Palpita ainda, e tem
Vida de coração…
Mas não ama ninguém.

Miguel Torga, in ‘Diário (1942)’

Paz

 

 

Calado ao pé de ti, depois de tudo, 
Justificado 
Como o instinto mandou, 
Ouço, nesta mudez, 
A força que te dobrou, 
Serena, dizer quem és 
E quem sou. 

Miguel Torga, in ‘Diário (1939)’

Viagem

 

 

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro
Era longe o meu sonho e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos.)

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

O Poeta

 

 

Triste, lá vai à ronda dos segredos 
O maluco que rouba quanto vê. 
Branco, do coração aos dedos, 
É todo antenas onde apenas lê. 

Murcha-lhe nos pés o rosmaninho 
E a própria rosa, de o sentir, descora; 
Mas é um Deus que passeia o seu caminho 
A beber a amargura de quem chora. 

Magro, lá passa, e lá se vai consigo 
A luz das coisas e a flor de tudo. 
É um bruxo lento, tenebroso e antigo, 
Pálido, sério, solitário e mudo. 

Miguel Torga, in ‘Diário (1943)’

Clarão

 

 

O que isto é, viver! 
Abrir os olhos, ver, 
E ser o nevoeiro que se vê! 
Nevoeiro ao nascer, 
Nevoeiro ao morrer, 
E um destino na mão que se não lê… 

Miguel Torga, in ‘Diário (1942)’

Aceno

 

 

 

Longe,
Seu coração bate por mim;
E a sua mão desenha aquele afago
Que me sossega inteiro…

Longe,
A verdade serena do seu rosto
É que faz este dia verdadeiro…

Miguel Torga, in ‘Diário

Poema Melancólico a não sei que Mulher

 

 

Dei-te os dias, as horas e os minutos 
Destes anos de vida que passaram; 
Nos meus versos ficaram 
Imagens que são máscaras anónimas 
Do teu rosto proibido; 
A fome insatisfeita que senti 
Era de ti, 
Fome do instinto que não foi ouvido. 

Agora retrocedo, leio os versos, 
Conto as desilusões no rol do coração, 
Recordo o pesadelo dos desejos, 
Olho o deserto humano desolado, 
E pergunto porquê, por que razão 
Nas dunas do teu peito o vento passa 
Sem tropeçar na graça 
Do mais leve sinal da minha mão… 

Miguel Torga, in ‘Diário VII’

Frustração

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais. 

Miguel Torga, in ‘Diário XV’