poesia

Despedida

Tudo entre nós foi dito.
Estamos cansados e tristes
neste outono de folhas pairando
e caindo.
Entre nós as palavras colocam um mundo de
silêncio e vazio estéril.
Os próprios sonhos se encheram de neblinas
e o tempo os amarelece.
Outono decisivo de folhas secas
e bancos abandonados de cimento frio
onde não cantam aves
e o vento desce em brandos rodopios.
Apenas uma vaga angústia presente,
uma saudade sem recomeços,
a lembrança tépida a gelar como
veios de mármore.
Tudo entre nós foi dito,
olhamos o apodrecer do parque,
o vento, o crepitar leve das folhas
e, sem ressentimentos, dizemos adeus.

Rui Knopfli, O País dos Outros, 1959

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«Porque gastas tempo em sonhos?»

«Porque gastas tempo em sonhos?»
Em que melhor o gastar?
Sonhos, enfim, são risonhos,
E fazem-nos não pensar.

O tempo que sonho passa
Pelo teor dos meus dias
Como o sol pela vidraça.
As sombras são sempre frias.

c.10-6-1934

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006