Rabindranath Tagore

À Espera do Amado

 

Disse-me baixinho: 
— Meu amor, olha-me nos olhos. 
Ralhei-lhe, duramente, e disse-lhe: 
— Vai-te embora. 
Mas ele não foi. 
Chegou ao pé de mim e agarrou-me as mãos… 
Eu disse-lhe: 
— Deixa-me. 
Mas ele não deixou. 

Encostou a cara ao meu ouvido. 
Afastei-me um pouco, 
fiquei a olhá-lo e disse-lhe: 
— Não tens vergonha? Nem se moveu. 
Os seus lábios roçaram a minha face. 
Estremeci e disse-lhe: 
— Como te atreves? 
Mas ele não se envergonhou. 

Prendeu-me uma flor no cabelo. 
Eu disse-lhe: 
— É inútil. 
Mas ele não fez caso. 
Tirou-me a grinalda do pescoço 
e abalou. 
Continuo a chorar, 
e pergunto ao meu coração: 
Porque é que ele não volta? 

Rabindranath Tagore, in “O Coração da Primavera” 

A Mulher Inspiradora

 

Mulher, não és só obra de Deus; 
os homens vão-te criando eternamente 
com a formosura dos seus corações, 
e os seus anseios 
vestiram de glória a tua juventude. 

Por ti o poeta vai tecendo 
a sua imaginária tela de oiro: 
o pintor dá às tuas formas, 
dia após dia, 
nova imortalidade. 

Para te adornar, para te vestir, 
para tornar-te mais preciosa, 
o mar traz as suas pérolas, 
a terra o seu oiro, 
sua flor os jardins do Verão. 

Mulher, és meio mulher, 
meio sonho. 

Rabindranath Tagore, in “O Coração da Primavera” 

À Espera do Amado Desconhecido

 

Quem é esta mulher,
a sempre triste,
que vive no meu coração?
Quis conquistá-la mas não consegui.

Adornei-a com grinaldas
e cantei em seu louvor…
Por um momento
bailou o sorriso no seu rosto,
mas logo se desvaneceu.

E disse-me cheia de pena:
— A minha alegria não está em ti.

Comprei-lhe argolas preciosas,
abanei-a
com leques recamados de diamantes,
deitei-a em cama de oiro …
Bateu as pálpebras
como um relâmpago de alegria
que logo se apagou.

E disse-me cheia de pena:
— Não está nessas coisas a minha alegria.

Sentei-a num carro de triunfo,
e passeei-a por toda a terra.
Milhares de corações conquistados
caíram humildes a seus pés,
e as aclamações reboaram pelo céu…
Durante um momento
brilhou o orgulho nos seus olhos,
mas logo se desfez em lágrimas.

E disse cheia de pena:
— Não está na vitória a minha alegria..

Perguntei-lhe:
— Que queres então?
Respondeu-me:
— Espero alguém
que não sei como se chama.
Depois calou-se.

E passa os dias a dizer cheia de pena:
— Quando virá o amado desconhecido?
Quando o conhecerei para sempre?

Rabindranath Tagore, in “O Coração da Primavera”

O Último Negócio

 

Certa manhã 
ia eu pelo caminho pedregoso, 
quando, de espada desembainhada, 
chegou o Rei no seu carro. 
Gritei: 
— Vendo-me! 
O Rei tomou-me pela mão e disse: 
— Sou poderoso, posso comprar-te. 
Mas de nada lhe serviu o seu poder 
e voltou sem mim no seu carro. 

As casas estavam fechadas 
ao sol do meio dia, 
e eu vagueava pelo beco tortuoso 
quando um velho 
com um saco de oiro às costas 
me saiu ao encontro. 
Hesitou um momento, e disse: 
— Posso comprar-te. 
Uma a uma contou as suas moedas. 
Mas eu voltei-lhe as costas 
e fui-me embora. 

Anoitecia e a sebe do jardim 
estava toda florida. 
Uma gentil rapariga 
apareceu diante de mim, e disse: 
— Compro-te com o meu sorriso. 
Mas o sorriso empalideceu 
e apagou-se nas suas lágrimas. 
E regressou outra vez à sombra, 
sozinha. 

O sol faiscava na areia 
e as ondas do mar 
quebravam-se caprichosamente. 
Um menino estava sentado na praia 
brincando com as conchas. 
Levantou a cabeça 
e, como se me conhecesse, disse: 
— Posso comprar-te com nada. 
Desde que fiz este negócio a brincar, 
sou livre. 

Rabindranath Tagore, in “O Coração da Primavera” 
Tradução de Manuel Simões

O tempo que leva…

 

O tempo que leva a minha jornada é longo, e mais longo ainda é o caminho a percorrer.
Saí na minha carruagem aos primeiros clarões da aurora e continuei minha viagem pelos ermos do mundo, deixando vestígios meus em muitas estrelas e planetas.
O percurso mais longo é o que vai para mais perto de ti e a aprendizagem mais complicada é a que leva à extrema simplicidade de uma melodia.
O viandante precisa bater em todas as portas para chegar à sua e vagar por todos os mundos exteriores para atingir afinal o santuário mais íntimo.
Meus olhos divagaram bem abertos por todas as partes antes que se fechassem e dissessem: “Tu estás aqui!” A pergunta e a exclamação: “Oh, onde?”, misturam-se com as lágrimas de mil torrentes e afoga o mundo com o dilúvio da certeza: “Eu sou!”

 

Rabindranath Tagore

Se não Falas

 

Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e agüentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

Rabindranath Tagore

As Coisas Transitórias

 

 

Irmão, 
nada é eterno, nada sobrevive. 
Recorda isto, e alegra-te. 

A nossa vida 
não é só a carga dos anos. 
A nossa vereda 
não é só o caminho interminável. 
Nenhum poeta tem o dever 
de cantar a antiga canção. 
A flor murcha e morre; 
mas aquele que a leva 
não deve chorá-la sempre… 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Chegará um silêncio absoluto, 
e, então, a música será perfeita. 
A vida inclinar-se-á ao poente 
para afogar-se em sombras doiradas. 
O amor há-de ser chamado do seu jogo 
para beber o sofrimento 
e subir ao céu das lágrimas … 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Apanhemos, no ar, as nossas flores, 
não no-las arrebate o vento que passa. 
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos 
roubando beijos que murchariam 
se os esquecêssemos. 

É ânsia a nossa vida 
e força o nosso desejo, 
porque o tempo toca a finados. 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Não podemos, num momento, abraçar as coisas, 
parti-las e atirá-las ao chão. 
Passam rápidas as horas, 
com os sonhos debaixo do manto. 
A vida, infindável para o trabalho 
e para o fastio, 
dá-nos apenas um dia para o amor. 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Sabe-nos bem a beleza 
porque a sua dança volúvel 
é o ritmo das nossas vidas. 
Gostamos da sabedoria 
porque não temos sempre de a acabar. 
No eterno tudo está feito e concluído, 
mas as flores da ilusão terrena 
são eternamente frescas, 
por causa da morte. 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Rabindranath Tagore, in “O Coração da Primavera” 
Tradução de Manuel Simões

Desejo Indomável

 

 

Como corre a gazela 
pela sombra dos bosques, 
enlouquecida pelo próprio perfume, 
assim corro eu, enlouquecido, 
nesta noite do coração de maio 
aquecida pela brisa do Sul. 

Perdi o caminho 
e erro ao acaso. 
Quero o que não tenho, 
e tenho o que não quero. 

A imagem do meu próprio desejo 
sai do meu coração 
e, dançando diante de mim, 
cintila uma e outra vez, 
subitamente. 

Quero agarrá-la, mas escapa-se. 
E, já longe, chama-me outra vez 
do atalho … 
Quero o que não tenho 
e tenho o que não quero. 

Rabindranath Tagore, in “O Coração da Primavera” 
Tradução de Manuel Simões