Sophia de Mello Breyner Andresen

No poema

No poema ficou o fogo mais secreto
O intenso fogo devorador das coisas
Que esteve sempre muito longe e muito perto

Sophia de Mello Breyner Andresen In No mar novo, 1958

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Pirata

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

Sophia de Mello Breyner Andresen, In Coral, 1950

Campo

Estou só nos campos
A doce noite murmura
A lua me ilumina
Corre em meu coração um rio de frescura
De tudo o que sonhou minha alma se aproxima

Sophia de Mello Breyner Andresen, In Livro sexto, 1962

Neste dia de mar e nevoeiro

Neste dia de mar e nevoeiro 
É tão próximo o teu rosto 

São os longos horizontes 
Os ritmos soltos dos ventos 
E aquelas aves 
Que desde o princípio das estações 
Fizeram ninhos e emigraram 
Para que num dia inverso tu as visses 

Aquelas aves que tinham 
uma memória eterna do teu rosto 
E voam sempre dentro do teu sonho 
Como se o teu olhar as sustentasse 

Sophia de Mello Breyner Andresen, In Coral, 1950 

Breve encontro

Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida

Sophia de Mello Breyner Andresen, In O nome das coisas, 1977

A pura face

Como encontrar-te depois de ter perdido 
Uma por uma as tardes que encontrei 
O ser de todo o ser de quem nem sei 
Se podes ser ao menos pressentido? 

Não te busquei no reino prometido 
Da terra nem na paixão com que eu a amei 
E porque não és tempo não te dei 
Meu desejo pelas horas consumido 

Apenas imagino que me espera 
No infinito silêncio a pura face 
Pr′além de vida morte ou Primavera 
E que a verei de frente e sem disfarce 

Sophia de Mello Breyner Andresen, In Livro sexto, 1962

É por ti

É por ti que se enfeita e se consome, 
Desgrenhada e florida, a Primavera. 
É por ti que a noite chama e espera 

És tu quem anuncia o poente nas estradas. 
E o vento torcendo as árvores desfolhadas 
Canta e grita que tu vais chegar. 

Sophia de Mello Breyner Andresen, In Dia do mar, 1947

Mar

De todos os cantos do mundo 
Amo com um amor mais forte e mais profundo 
Aquela praia extasiada e nua, 
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua. 

II 

Cheiro a terra as árvores e o vento 
Que a Primavera enche de perfumes 
Mas neles só quero e só procuro 
A selvagem exalação das ondas 
Subindo para os astros como um grito puro. 

Sophia de Mello Breyner Andresen, In Poesia, 1944

Eu me perdi

Eu me perdi na sordidez de um mundo 
Onde era preciso ser 
Polícia, agiota, fariseu 
Ou cocote 

Eu me perdi na sordidez do mundo 
Eu me salvei na limpidez da terra 

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar 
E nunca 
Um navio da costa se afastou 
Sem me levar 

Sophia de Mello Breyner Andresen, In Geografia, 1962 

 

Evadir-me, esquecer-me, regressar

Evadir-me, esquecer-me, regressar 
À frescura das coisas vegetais, 
Ao verde flutuante dos pinhais 
Percorridos de seivas virginais 
E ao grande vento límpido do mar. 

Sophia de Mello Breyner Andresen, In Dia do mar, 1947

Inscrição

Quando eu morrer voltarei para buscar 
Os instantes que não vivi junto do mar 

Sophia de Mello Breyner Andresen, In Livro sexto, 1962 

Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas 
O cheiro da terra era fundo e amargo, 
E ao longe as cavalgadas do mar largo 
Sacudiam na areia as suas crinas. 

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura. 
Era a carne das árvores elástica e dura, 
Eram as gotas de sangue da resina 
E as folhas em que a luz se descombina. 

Eram os caminhos num  lento, 
Eram as mãos profundas do vento 
Era o livre e luminoso chamamento 
Da asa dos espaços fugitiva. 

Eram os pinheiros onde o céu poisa, 
Era o peso e era a cor de cada coisa, 
A sua quietude, secretamente viva, 
A sua exaltação afirmativa. 

Era a verdade e a força do mar largo 
Cuja voz ,quando se quebra, sobe, 
Era o regresso sem fim e a claridade 
Das praias onde a direito o vento corre. 

Sophia de Mello Breyner Andresen, In Poesia, 1944

Um dia

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta — por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

 
Sophia de Mello Breyner Andresen

Espero

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen

Chamo-Te

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio 
E suportar é o tempo mais comprido. 

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade, 
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe. 

Há muitas coisas que não quero ver. 

Peço-Te que sejas o presente. 
Peço-Te que inundes tudo. 
E que o Teu reino antes do tempo venha 
E se derrame sobre a Terra 
Em Primavera feroz precipitado.

 
Sophia de Mello Breyner Andresen

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aquele que partiu

Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.

Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto
Intacta é a sua ausência
Como a estátua dum deus
Poupada pelos invasores duma cidade em ruínas

Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo

Que ao longe
Na mais longínqua praia
Onde só haja espuma sal e vento
Ele se perca tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento

E que ninguém repita o seu nome proibido.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen