Thiago de Mello

Epitáfio

O canto desse menino
talvez tenha sido em vão.
Mas ele fez o que pôde.
Fez sobretudo o que sempre
lhe mandava o coração.

Thiago de Mello In Faz escuro mas eu canto, 1966

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Alma e Amor

O desenho colorido
dá nome ao pássaro mágico.
Nome e alma. Um banda-de-asa
dançando ensina: o ser vivo
carece de outra metade.
O de bola quando sobe
e quando imbica te lembra
que o mundo dá muitas voltas.

Cada palavra também
tem sua alma e seus amores.
Uma só faz cem metáforas,
outras têm só um segredo.
Mas todas sabem cantar
quando gostam do aconchego.
Conquanto algumas prefiram
apascentar o silêncio.

Thiago de Mello In Campo de milagres, 1998

Como um Rio

Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva,
e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de água impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, saber seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.

Thiago de Mello In Mormaço na Floresta, 1981

Sonho Domado

Sei que é preciso sonhar.

Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.

Thiago de Mello In Mormaço na Floresta, 1981

As ensinanças da dúvida

Tive um chão (mas já faz tempo) 
todo feito de certezas 
tão duras como lajedos. 

Agora (o tempo é que fez) 
tenho um caminho de barro 
umedecido de dúvidas. 

Mas nele (devagar vou) 
me cresce funda a certeza 
de que vale a pena o amor 

Thiago de Mello In Mormaço na floresta, 1981

É nos Porões

Faço o poema com a mesma 
ciência e delicadeza 
com que, mãos adolescentes, 
e a imaginação nas nuvens, 
fazia o meu papagaio. 
Sempre trabalhei sozinho 
no alto porão do sobrado, 
onde as talas repousavam. 
Para urdir a luz do poema, 
preciso ir aos meus porões 
onde as palavras me esperam. 

Thiago de Mello In Campo de milagres, 1998

A Aprendizagem Amarga

Chega um dia em que o dia se termina
antes que a noite caia inteiramente.
Chega um dia em que a mão, já no caminho,
de repente se esquece do seu gesto.
Chega um dia em que a lenha já não chega
para acender o fogo da lareira.
Chega um dia em que o amor, que era infinito,
de repente se acaba, de repente.

Força é saber amar, perto e distante,
como o encanto de rosa livre na haste,
para que o amor ferido não se acabe
na eternidade amarga de um instante.

Thiago de Mello In Faz escuro mas eu canto, 1966