FAUSTO: Reza por mim Maria

FAUSTO:
Reza por mim Maria
MARIA:
(Rezo por ti? Sim rezarei. Mas o que tens?)
FAUSTO:
Reza por mim e diz a Deus (…)
Reza por mim, Maria, e eu sentirei
Uma calma d’amor sobre o meu ser,
Como o luar sobre um lago estagnado,
A fazê-lo um milagre de beleza.
Reza por mim e diz: Oh Deus, meu Deus,
Fazei-o inda feliz esse a quem amo
(Se é que me amas…).
MARIA:
Inda duvidas, meu amor?
FAUSTO:
Dize: Fazei feliz esse a quem amo
E que, qual condenado pela vida,
Arrasta a grilheta da dor,
Cujos olhos não choram por não ter
Na alma já lágrimas p’ra chorar,
Que, tendo erguido o seu pensar ao cume
Do humano pensar… Não, não importa,
Não digas nada, reza e que a tua alma,
Compadecendo-se de mim encontre
Os termos, as palavras que na prece
Murmurará… Choras? Fiz-te chorar?
MARIA:
Sim… Não… Eu choro apenas de te ver
Triste e (…) sem que eu compreenda
Tua tristeza, meu amor. Vem ela
De alguma dor — oh dize-me, partilha
Comigo a tua dor que eu te darei
O meu carinho, porque te amo tanto…
FAUSTO:
Tu amas-me, tu amas-me, Maria?
MARIA:
Ah, tu duvidas? Meu amor, duvidas?
Temes talvez que o meu acanhamento,
Que vem d’amor, eu não sei como, seja
Indiferença… Não… ah não o creias!
Eu não tenho a viveza, nem a ardência
Que algumas têm, tremo de mim mesma
Do meu amor, mas eu não sei por quê…
Mas amo-te… Se te amo, porque hás-de
Tu duvidar de mim?
Ah, se palavras
Podem levar a alma nelas, Fausto,
Se o amor, este amor como eu sinto,
Pode dizer-se sem o duvidar
Se o que eu sinto em minha alma quando te vejo
Quando sinto o teu passo, quando penso
Em ti, amor, em ti, se olhares, beijos
Podem mostrar o amor, todo o amor —
Crê que as minhas palavras, os meus beijos,
O meu olhar têm esse amor.
Se eu não posso
Gritar:amor, amor, ardentemente
E desmedidamente, e a voz em fogo,
É que em mim mesmo, nasce-me um pudor
De o dizer muito alto (mas não creias
Que é por amar-te pouco, que só é
De amar-te muito e amar-te como te amo)
Se isto não faço, não duvides, não…
Eu não sei dizer mais; não aprendi
Como o amor fala não, não aprendi,
Porque o amor não fala, não pode
Dizer-se todo, senão não seria
Amor, ao menos este amor que eu sinto.
Não sei, não sei dizer-te… Não duvides!
Eu pareço talvez fria aos teus olhos;
Não duvides que eu sofra muito, muito
Por duvidares
E eu amo-te… Meu Deus, como eu te amo!
FAUSTO (aparte):
Como eu sinto de ouvi-la e de sentir
(Sentir pelo meu pensamento) quanto
É aquele amor e como ele é amor,
Minha alma fria, meu coração frio!
Aquilo é amor… Eu, pois, nunca amarei…
Que ela fala e eu compreendo (se compreendo!
Quanto ela ama, como ela fala amor).
Nada sinto em mim que nasça, surja
E vá de encontro ao seu amor. Não posso
Fazer erguer em mim um sentimento
Que dê as mãos àquele. E, de o não poder,
Eu mais frio me sinto, mais pesado
N’alma, na minha desconsolação.
Como me sinto falso, falso a mim mesmo,
Falso à existência, falso à vida, ao amor!
(alto)
Perdoa, amor
(aparte)
Amor! Como me amarga
De vazia em meu ser esta palavra!
Como de isso assim ser me encolerizo!
(alto)
Perdoa, meu amor!

Cedo aprendi a duvidar de tudo
Por duvidar de mim, sem o querer,
Sem razão de o querer ou de o pensar
Durante em honras, amor, felicidade…
Em tudo… Mas eu creio em ti, Maria,
Eu creio em ti… Como és bela! Não, não chores,
Quero falar ternura e não o sei;
Tenho a alma fria — oh raiva! é impossível.

Fausto – Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa.

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