Mês: julho 2016

Regressei ao corpo insuperável

Regressei ao corpo insuperável
à infância do ser, à inocência viva
Já não sou o meu nome, sou músculo suave
do fogo do universo
sou a liberdade límpida
de um rio silencioso que nasce
em cada instante do princípio do mundo
Não me pertenço
Os meus contornos
são os confins em que o teu corpo começa
O meu modo de ser é interrogativo e desce
ao centro do impossível e envolve
a totalidade inacessível
num enlace de água
em que o ser e o não ser se conjugam no real absoluto
Entre mim e ti não há pontes
a minha diferença respira
a tua noite e o meu dia, o teu sol e a tua lua
Estou vivo contigo na presença e na ausência
tu és tu, nada nos separa porque a separação
é a linha da aliança unitiva
a respiração do vivo amor entre nós
nos faz nascer.
António Ramos Rosa
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Não posso adiar o amor para outro século

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa In “Viagem Através de uma Nebulosa”, 1960

Uma voz na pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo, não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida. Estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra

António Ramos Rosa In Facilidade do ar, 1990

 

Escuta-me piedosamente

Escuta-me piedosamente.
Não vale a pena amar-me não,
Mas o que o meu coração sente —
Ah, quero que te passe rente
À ideia do teu coração…
Quero que julgues que podias
Se quisesses, amar-me. Só
Saber isso consolaria
Minha alma erma de alegria…
Ter a certeza do teu dó!…
Teu dó, o teu quasi carinho…
Qualquer sentimento por mim…
Que não me deixasse sozinho…
Eu posso construir um ninho,
Com o pouco que me vem de ti…
Eu tenho de mim tanta pena
Qu’ria ao menos que tu também
Viesses ter pena serena
Não de mim ou da minha pena,
Essa pena que ninguém tem.
c. 2-10-1915

Fernando Pessoa  In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Não creio ainda no que sinto

I

Não creio ainda no que sinto —
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração…

Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali fica parada.

Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.

II
Tudo o que sinto se concentra
Em te sentir
A boca, o amor, o beijo que entra
E sai a rir.

Tudo o que penso se define
Em sentir preso
Teu lábio contra os meus □

□ espaço deixado em branco pelo autor

9 – 2 – 1920

Fernando Pessoa In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Morde-me com o querer-me que tens nos olhos

Morde-me com o querer-me que tens nos olhos
Despe-te em sonho ante o sonhares-me vendo-te,
Dá-te vária, dá sonhos de ti própria aos molhos
Ao teu pensar-me querendo-te…

Desfolha sonhos teus de dando-te variamente,
Ó perversa, sobre o êxtase da atenção
Que tu em sonhos dás-me… E o teu sonho de mim é quente
No teu olhar absorto ou em abstracção…

Possue-me-te, seja eu em ti meu spasmo e um rocio
De voluptuosos eus na tua coroa de rainha…
Meu amor será o sair de mim do teu ócio
E eu nunca serei teu, ó apenas-minha?

22 – 5 – 1913

Fernando Pessoa In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

Eu me resigno. Há no alto da montanha

Eu me resigno. Há no alto da montanha
Um penhasco saído,
Que, visto de onde toda a coisa é estranha,
Deste vale escondido,
Parece posto ali para o não termos,
Para que, vendo-o ali,
Nos contentemos só com o ali vermos
No nosso eterno aqui…

Eu me resigno. Esse penhasco agudo
Talvez alcançarão
Os que na força firme põem tudo.
De teu próprio silêncio altivo escudo,
Não vás, meu coração.

28 – 10 – 1933

Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança.

   Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas por que deixou que a Vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas? Se eu não poderia viver senão acarinhado, porque deitaram fora o meu carinho? Ah, cada vez que vejo nas ruas uma criança a chorar, uma criança exilada dos outros, dói-me mais que a tristeza da criança o horror desprevenido do meu coração exausto. Doo-me com toda a estatura da vida sentida, e são minhas as mãos que torcem o canto do bibe, são minhas as bocas tortas das lágrimas verdadeiras, é minha a fraqueza, é minha a solidão, e os risos da vida adulta que passa usam-me como luzes de fósforos riscados no estofo sensível do meu coração.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.

Sinto o tempo

Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa. O pobre quarto alugado onde passei uns meses, a mesa do hotel de província onde passei seis dias, a própria triste sala de espera da estação de caminho-de-ferro onde gastei duas horas à espera do comboio — sim, mas as coisas pequenas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da boca de Deus roça-me pela face lívida.

O tempo! O passado! Aí algures, uma voz, um canto, um perfume ocasional levantou em minha alma o pano de boca das minhas recordações… Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância. Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.

Quando criança eu apanhava os carrinhos de linha

Quando criança eu apanhava os carrinhos de linha. Amava-os com um amor doloroso — que bem que me lembro — porque tinha por eles não serem reais uma imensa compaixão.

Quando um dia consegui haver às mãos o resto de umas pedras de xadrez, que alegria não foi a minha! Arranjei logo nomes para as figuras e passaram a pertencer ao meu mundo de sonho.

Essas figuras definiam-se nitidamente. Tinham vidas distintas. Morava um — cujo carácter eu decretara violento e sportsman — numa caixa que estava em cima da minha cómoda, por onde passeava, à tarde quando eu, e depois ele, regressávamos do colégio, um carro eléctrico de interiores de caixas de fósforos de madeira, ligadas não sei por que arranjo de arame. Ele saltava sempre com o carro a andar. Ó minha infância morta! Ó cadáver sempre vivo no meu peito! Quando me lembro destes meus brinquedos de criança já crescida, a sensação de lágrimas aquece-me os olhos e uma saudade aguda e inútil rói-me como um remorso. Tudo aquilo passou, ficou hirto e visível, visualizável no meu passado, na minha perpétua ideia do meu quarto de então, à roda da minha pessoa invisualizável de criança, vista de dentro, que ia da cómoda para o toucador, e do toucador para a cama, conduzindo pelo ar, imaginando-o parte da linha de carris, o eléctrico rudimentar que levava a casa os meus escolares de madeira ridículos.

A uns eu atribuía vícios — fumo, roubo — mas não sou de índole sexual e não lhes atribuía actos, salvo, creio, uma predilecção, que me parecia um acto de brincar, de beijar raparigas e espreitar-lhes as pernas. Fazia-os fumar papei enrolado por trás de uma caixa grande que havia em cima duma mala. Às vezes aparecia no lugar um mestre. E era com toda a emoção deles, e que eu me via obrigado a sentir, que eu arrumava logo o cigarro falso e punha o fumador vendo-o curiosamente desprendido à esquina, esperando o mestre, e cumprimentando-o, não me lembro bem como, à inevitável passagem… Às vezes, estavam longe um do outro e eu não podia com um braço manobrar esse e outro com o outro. Tinha que os fazer andar alternadamente. Doía-me isto como hoje me dói não poder dar expressão a uma vida… Ah, mas por que recordo eu isto? Por que não fiquei eu sempre criança? Por que não morri eu ali, num desses momentos, preso das astúcias dos meus escolares e da vinda como-que-inesperada dos meus mestres? Hoje não posso fazer isto… Hoje tenho só a realidade com que não posso brincar… Pobre criança exilada na sua virilidade! Por que foi que eu tive de crescer?

Hoje, quando relembro isto, vêm-me saudades de mais coisas do que isto tudo. Morreu em mim mais do que o meu passado.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.

As letras

Na tênue casca de verde arbusto
Gravei teu nome, depois parti;
Foram-se os anos, foram-se os meses,
Foram-se os dias, acho-me aqui.
Mas ai! O arbusto se fez tão alto,
Teu nome erguendo que não mais vi!
E nessas letras que aos céus subiam
Meus belos sonhos de amor perdi!

Fagundes Varela In Obras completas (Vol. 2), 1892

Alma e Amor

O desenho colorido
dá nome ao pássaro mágico.
Nome e alma. Um banda-de-asa
dançando ensina: o ser vivo
carece de outra metade.
O de bola quando sobe
e quando imbica te lembra
que o mundo dá muitas voltas.

Cada palavra também
tem sua alma e seus amores.
Uma só faz cem metáforas,
outras têm só um segredo.
Mas todas sabem cantar
quando gostam do aconchego.
Conquanto algumas prefiram
apascentar o silêncio.

Thiago de Mello In Campo de milagres, 1998